Lótus India Black Ale e Lupulagem de Primeiro Mosto (First Wort Hopping)

Motivado pela última edição (Vol. 33, no. 4, July/August 2010) da Zymurgy, uma revista bimensal da AHA – American Homebrewers Association (disponível para sócios perante uma anuidade de US$44 fora dos EUA — US$112 por três anos), que trás uma discussão do nascente estilo India Black Ale (IBA), resolvi refazer a Lótus, a minha versão desse estilo.

Esse estilo já aparece classificado no Guia de Estilos 2010 da Brewers Association, associado principalmente a cervejas comerciais. Os seus parâmetros são os seguintes.

Parâmetros da India Black IPA segundo o Guia de Estilos 2010 da Brewers Association:

  • Gravidade original: 1.056-1.075 g.e.
  • Gravidade final: 1.012-1.018 g.e.
  • Conteúdo alcoólico: 6-7,5% ABV
  • Amargor: 35-60 IBU
  • Cor: 50-98 EBC

Esse estilo ainda não aparece classificado pelo BJCP – Beer Judge Certification Program, cuja última versão data de 2008. A expectativa é que a próxima versão do BJCP já contenha uma definição desse estilo.

A última edição da Zymurgy trouxe duas receitas de India Black Ale, em um artigo de Ted Hausotter, cervejeiro caseiro do Oregon e representante regional do BJCP. Uma delas está bem dentro dos parâmetros acima mas a outra foge um pouco, com uma gravidade original de 1.076 e IBU de 94! O artigo também inclui uma sugestão de parâmetros, mas com a ressalva de que esse é um estilo em evolução e ainda não há um consenso sobre quais serão os parâmetros definidos pelo BJCP. Ele também menciona que, em competições, no momento, é melhor inscrever uma tal cerveja na categoria 23 Specialty Beer. Os parâmetros sugeridos pelo autor são os seguintes.

Parâmetros da India Black IPA segundo sugestão do artigo da Zymurgy:

  • Gravidade original: 1.060-1.075 g.e.
  • Gravidade final: 1.008-1.016 g.e.
  • Conteúdo alcoólico: não informado
  • Amargor: 60-90 IBU
  • Cor: 59-79 EBC

Note a diferença no amargor entre as duas definições!

A revista traz um breve relato histórico do desenrolar do estilo, citando uma primeira cerveja, com características próximas de uma India Black Ale, de nome Blackwatch IPA fabricada por Greg Noonan, cervejeiro da Vermont Pub and Brewery, na costa leste dos Estados Unidos, em 1990. O artigo conta que o estilo começou então a tomar forma na década de 2000 e o chama, na verdade, pelo nome alternativo de Cascadian Dark Ale, como um estilo emergindo na região noroeste dos EUA, na costa do Pacífico, na terra dos lúpulos cítricos. O termo Cascadian se refere à região da Cordilheira das Cascatas (Cascade Range em inglês), onde esses lúpulos são cultivados.

O estilo é descrito como uma bomba de lúpulos, que funciona melhor com lúpulos cítricos (Cascade, Columbus, Simcoe, Centennial, Amarillo e Chinook), que hamornizam perfeitamente com os maltes escuros. São tão lupuladas quanto as IPAs, mas com o torrado do malte mais presente no final do sabor. O corpo e o torrado são mais leves que em uma stout ou porter mas mais presentes que em uma schwarzbier alemã.

Interessante que o artigo cita que o caráter cítrico desses lúpulos muda com a presença dos maltes torrados, os afastando do toranja (grapefruit) e os aproximando da laranja e da tangerina. Menta e alecrim (rosemary), raros em IPAs, também emergem desses lúpulos com a presença do malte torrado.

O artigo cita dry hopping como quase sempre necessário para a o estilo. Também enaltece as vantagens do malte torrado carafa especial, sem casca, para diminuir a adstringência. Um pouco de malte caramelo também é normalmente utilizado. Uma mostura entre 65-66C é típica, favorecendo um mosto mais fermentável e uma atenuação maior.

Mas na verdade queria modificar a minha receita anterior e não queria fazer uma cerveja exatamente nos parâmetros do artigo da Zymurgy. Queria uma cerveja um pouco mais leve, mais seca e com menos corpo. Seria uma base mais para Dry Stout, mas mantendo a lupulagem de aroma e sabor de uma IPA. Estaria mais na parte inferior dos parâmetros da Brewers Association.

Por isso o meu plano foi almejar uma OG de 1.056 e uma atenuação bem alta, de 78%, para obter uma FG de 1.012 e ABV de 5,7%. Não coloquei malte caramelo e ainda coloquei um pouco de açúcar (4% em peso) e fiz a sacarificação inicialmente a 66C, deixando a temperatura baixar com o tempo (terminou em 62C após 90min).

Em parte por não ter o carafa especial e por querer evitar a rascante do malte black (carafa III), usei ainda uma combinação de partes iguais de malte chocolate e cevada torrada (3% cada). O amargor desejado era de 42 IBU, com um equilíbrio de BU:GU=42/56=0,75. Mas com muito lúpulo no final da fervura de aroma e sabor e também em dry-hopping. Note que esses parâmetros ainda estão dentro da definição de uma India Black Ale pelo Brewers Association, exceto talvez pelo teor alcoólico. (Mas nesse ponto note uma pequena inconsistência, pois se a OG for de 1.056 e a FG for a mínima possível, de 1.012, o teor alcoólico – pela fórmula clássica mais precisa – será de uns 5,7 ou 5,8%, portanto abaixo do mínimo de 6% indicado para o estilo; ou seja, se eles permitem uma OG tão baixa quanto 1.056, deveriam permitir um teor alcoólico mais baixo também.)

E para variar mais um pouco, resolvi experimentar pela primeira vez esse método de lupulagem chamado em inglês de First Wort Hopping, cuja tradução literal talvez seja algo como “lupulagem de primeiro mosto”.

Esse método de lupulagem consiste em adicionar parte do lúpulo durante a lavagem, antes da fervura. O lúpulo é adicionado na panela de fervura, quando ela começa a receber a parte inicial do mosto da lavagem (o primeiro mosto!). Nesse momento os óleos essenciais dos lúpulos, responsáveis pelos seus sabores e aromas e que são tão voláteis e facilmente expelidos durante a fervura normal, sofrem processos físico-químicos que o tornam menos voláteis. Com isso, a contribuição para o aroma e, principalmente, o sabor desses lúpulos é maior. Por outro lado, esses lúpulos ficam na fervura o tempo todo e a conversão dos alfa-ácidos em iso-alfa-ácidos ocorre como em lúpulos adicionados no início da fervura, ou até um pouco mais, segundo alguns estudos. Em algumas análises sensoriais, aparentemente o amargor gerado dessa maneira é mais suave e agradável, também.

Esse método aparentemente teve origem na Alemanha e vem sendo utilizado principalmente em cervejas do estilo pílsen e com lúpulos nobres, de alfa-ácido bem baixo. Parte da lupulagem do final da fervura é transferida para antes da fervura, algo em torno de 30%. Não encontrei muitos estudos feitos com lúpulos de alfa-ácidos altos e cervejas de outros estilos, mas há vários relatos mais recentes de sucesso em diversos outros estilos onde lúpulos são proeminentes. Imagino que em Bitters e IPAs o método caia muito bem. E como o amargor gerado com essa lupulagem é supostamente mais suave isso deve cair bem para não potencializar o rascante dos grãos torrados de uma IBA.

O artigo First Wort Hopping, de 1997, contém um resumo de um artigo fundamental publicado em 1995 sobre essa técnica de lupulagem. O artigo original pode ser encontrado aqui.

Na minha versão, fiz uma fervura de 90min com 63L iniciais, terminando com 52L e colocando 46L para fermentar. Coloquei 40g de Cascase antes da fervura, depois 50g de Cluster (7%) a 60min, mais 40g de Cascade (5,5%) a 21min, mais 40g de Cascade (5,5%) a 14min, mais 60g de Cascade (5,5%) a 7min, e ainda vou colocar mais 70g de Cascade (5,5%) de dry-hopping. Talvez haja relativamente pouco lúpulo de primeiro mosto nessa receita para fazer muita diferença, mas como primeira tentativa e como não queria errar muito a mão nessa receita, achei melhor assim. Acho que na próxima versão tomo coragem e elimino a lupulagem de 60min, aumentando o Cascade de primeiro mosto e mantendo as outras lupulagens de final de fervura e dry-hopping.

Na foto abaixo, o mosto do início da lavagem, com os primeiros 40g de Cascade.
Lupulagem de primeiro mosto

A eficiência foi mais alta que a esperada e aí, com alguns ajustes de última hora, os parâmetros ficaram um pouco diferentes do desejado: FG de 1.058 e IBU de 42, com BU:GU=0,72. A cor calculada pelo Beer Tools foi de 45 EBCs, mas na verdade isso parece muito claro para a cor do mosto. A cor calculada pela fórmula do Randy Mosher no livro The Brewers Companion é de 51 EBC, o que é um pouco mais próximo do que parece ser certo.

O resultado? Só daqui a algumas semanas depois que o fermento acabar de trabalhar…

[Editado posteriormente: vejam alguns comentários muito relevantes e interessantes abaixo!]
Lótus fermentando

I Concurso Paulista de Cerveja Caseira e Festival de Inverno da Acerva Paulista

A maioria dos meus artigos é sobre alguma coisa técnica de cerveja mas nem todos. E hoje abro nova exceção para escrever um pouquinho sobre esse maravilhoso final de semana que passou.

Não há muito o que acrescentar, já há várias notícias e artigos sobre o concurso e o festival, que foram de grande sucesso. Mas não poderia deixar de registrar aqui, também, que o concurso e festival de inverno foram muuuuito bacanas e dar os meus devidos parabéns e agradecimentos.

Parabenizo, em primeiro lugar, o Alexandre e a Janaína, pelo concurso e pela grande festa que fizeram no ambiente mais que apropriado de sua microcervejaria, a Cervejaria Bamberg, de Votorantim. Agradeço pela oportunidade de avaliar as cervejas do concurso, que foi uma grata experiência. E agradeço, principalmente, pela homenagem carinhosa que fizeram a mim, ao Botto e ao Mauro, nos agraciando com a primeira edição do Prêmio Wilhelm IV, pelos “serviços prestados à Cultura Cervejeira do Brasil!”

Eu devia ter desconfiado! No início do ano passado, o Alexandre nos convidou dizendo que seria muito legal juntar nós três como jurados… E o bacana é que, como o Mauro observou, nós três estávamos juntos, por coincidência, quando o Alexandre anunciou o prêmio.

A homenagem foi inesperada e nos deixou visivelmente emocionados.
Mauro, Botto e Eu, na hora do anúncio do prêmio
Recebendo o prêmio
Exibindo o prêmio

Parabenizo, também, a ACervA Paulista, pela iniciativa em organizar o concurso e o festival em conjunto com a Bamberg e pela organização de primeira classe que fizeram do Festival. Foi uma festa impecável, onde nada saiu errado. Como a festa começou cedo, não houve avanço no buffet, e a comida foi servida sem problemas e ao longo da festa toda. A cerveja foi farta e de ótima qualidade. O espaço foi amplo e agradável.

Aquela primeira visão da fileira de costelas foi impressionante.
Costelas!!!

E depois a parede de chopeiras foi de deixar babando, e que o Mauro começou fazendo as honras.
Mauro e as chopeiras

Provei, de fato, todas as cervejas caseiras servidas nas chopeiras. Isso foi motivado pela fichinha que eles nos deram, onde uma das perguntas era sobre as três melhores cervejas na nossa opinião. Aí só provando, né!? Cravei uma Belgian Strong Dark Ale em primeiro, que esqueci de quem era. Ouvi outros elogiando essa também. Aliás, o nível das cervejas estava excelente!

Tinham três American IPAs muito boas (uma delas a segunda colocada no concurso e outra do pessoal do Lamas Bier), uma Dry Stout clássica do Alex da Ros, a Oatmeal Stout de primeira da Tati, uma Irish Red deliciosa também do pessoal do Lamas, uma Belgian Specialty Ale interessante do Renato de Mogi (que ele chamou de Tripel, e que tinha anis, cravo e outras coisas, bem interessante), uma Barley Wine com favas de baunilha e maturada em carvalho do Philip, e muitas outras que já não lembro mais. Tinha uma lista bacana de todas as cervejas rolando na festa que seria legal postar em algum blog.

Esse “exercício” de escolher a melhor serviu para tirar uma dúvida que tinha, sobre a avaliação do estilo livre. Posso dizer que nem foi tão difícil escolher a minha preferida. Por um lado, certamente é difícil fazer uma escolha “de acordo com o estilo”. Seria muito difícil eu escolher a Irish Red ou a Dry Stout por mais fiéis que elas estivessem aos estilos e por mais que elas tivessem mais drinkability e eu passasse mais tempo bebendo delas. Certamente uma cerveja com mais, digamos assim, personalidade leva mais vantagem nessa avaliação. Por outro lado, dentre várias cervejas de personalidade, como a Belgian Specialty Ale, a Barley Wine com baunilha e maturada em carvalho, as IPAs e Oatmeal ou Imperial Stouts e a Belgian Dark Strong Ale, é possível sim fazer uma escolha sem muitas dificuldades. Para mim, a Belgian Strong Dark Ale foi a que superou as outras em termos de equilíbrio e complexidade, tanto de aromas como de sabores, e foi a que eu escolhi, mesmo não sendo, no momento, um dos meus estilos favoritos de cerveja.

Eu que inicialmente sempre fui defensor do estilo livre, andei um tanto em dúvida, mas agora volto a ficar animado com ele. Não sei bem a melhor maneira de avaliá-lo, mas um dia chegaremos lá. Acho que eu sempre achei difícil a minha, ou alguma cerveja de algum amigo ou amiga, ganhar, mas dessa vez que eu estava julgando e que estava isento e não conhecia nenhuma cerveja de antemão, as coisas se revelaram com mais clareza na minha frente. E, como em qualquer concurso, a “melhor” cerveja é um conceito um tanto fictício e o que importa é que a cerveja escolhida como a melhor é, no mínimo, uma excelente cerveja e certamente uma das melhores por qualquer critério objetivo, então bola pra frente. O que importa é incentivar a cultura cervejeira.

Uma coisa que achei um barato no festival é que tinha um clima dos encontros de cerveja que fui nos EUA, com aquele dia ensolarado, a tenda armada em algum lugar ao lado de fora, as várias chopeiras a gelo, e muita gente em volta se divertindo. A única coisa diferente era o som alto; lá o som costuma ser um pouco mais baixo e a conversa flui um pouco mais fácil. Mas é só questão de gosto. Curtimos muito.
Mauro, eu, Lu e Duda

A festa rolou com muito alto astral, muita amizade, muita democracia, muito espírito de união e definitivamente sem fins lucrativos. É com muito prazer que vejo a ACervA Paulista seguindo esses preceitos tão fundamentais para o crescimento da cultura cervejeira! E é por isso que essa cultura está crescendo a passos largos nesse estado. Um brinde!
Um brinde!

Parabenizo também o Marcelo Carneiro, da Cervejaria Colorado, e o Marco Falcone, da Falke Bier, que prestigiaram o evento. O Marco trouxe a sua novidade F5, uma Bohemian Pilsener deliciosa. Tomei algumas tulipas dela e pelo jeito ele tomou muitas! Há dezenas de microcervejarias no estado e centenas no país (estou exagerando?) mas às vezes nem parece que tem tanto. Parabéns a esses três que estão sempre juntos e nos apoiando!
Marcelo, Marco e Alexandre

Quanto ao concurso, foi na véspera, também na fábrica da Bamberg. Foi a minha primeira experiência como jurado e foi muito bacana. No meu grupo de jurados estavam o Maurício do Brejas, o Afonso Landini da Turma da Cerveja Artesanal, o Feijão do Obiercevando e o Edu Passarelli do Melograno e foi uma delícia trocar experiência com eles.
Degustando e avaliando

A Duda, a Lu e a Tati da Female Carioca foram providenciais em fazer a degustação ocorrer sem maiores problemas. As três primeiras escolhidas do conjunto de jurados foram também as minhas três primeiras, na mesma ordem. Os cervejeiros vencedores foram Guilherme de Santi, Paulo Ferro e Alex Viera, respectivamente (e que aparecem na foto abaixo da direita para a esquerda).
Os vencedores

Em uma nota mais particular, agradeço imensamente ao David e à Thais, por receberam a mim e à Duda em sua casa em Campinas, com tanto carinho, e cuidarem tão bem da gente durante todo o final de semana. Agradeço também ao Christoph, que esteve sempre presente e também nos ajudou muito. E por coincidência, David e Thais acolheram ao Botto e ao Mauro, junto com a Tati e a Lu, de sexta pra sábado também. Já tava tudo armado!

Valeu pessoal!

PS: Agradecimentos à Lu e à Duda pelas fotos, mesmo que tenha sido sem o consentimento delas… ;)

Extrato potencial e ficha de análise de malte

A gravidade original (ou extrato primitivo) do mosto de uma cerveja depende de vários fatores, sendo os mais significativos deles a moagem do malte e a eficiência da brassagem. Mas dessa vez queria chamar a atenção para a dependência também no tipo de malte utilizado, e para a leitura da ficha de análise do malte.

A gravidade original depende da quantidade de material solúvel presente no malte, incluíndo proteínas de baixa densidade e parte do amido que será transformado em açúcares e dextrinas no mosto. Esse material solúvel é uma certa porcentagem do malte todo, pois o malte também contém casca, proteínas grandes e umidade. E essa porcentagem é diferente para cada tipo de malte, com os maltes base (e.g. pílsen, pale ale, viena, munique) contribuindo em geral com uma gravidade original relativamente maior do que os maltes especiais (e.g. caramelo, chocolate, black). Mas essa variação também pode ser significativa até mesmo em cada tipo de malte, variando de maltaria para maltaria, ou até de lote para lote.

Os diversos tipos de programa (BeerTools Pro, ProMash, BeerSmith, etc.) levam automaticamente isso em consideração quando a receita é montada com maltes diferentes. Mas para a conta ficar mais precisa, caso isso seja de interesse, é necessário ter acesso à ficha de análise do malte em questão.

A gravidade máxima obtida em laboratório, que vamos chamar de extrato potencial, pode ser medida em densidade por unidade de massa vezes volume do mosto. A densidade pode ser medida em gravidade específica ou graus Plato, por exemplo. Os programas comumente utilizados em geral informam o extrato potencial em unidades de gravidade (gravidade específica vezes mil; e.g. uma gravidade específica de 1.046 tem 46 unidades de gravidade) a cada libra de malte por galão de mosto.

Mais precisamente, considerando o BeerTools Pro que é o programa que uso, temos aproximadamente uns vinte tipos de malte pílsen de maltarias de diversos países no banco de dados. A tabela abaixo ilustra a variação no extrato potencial entre alguns deles e a gravidade original obtida em uma receita com 5Kg de malte pílsen e 25L de cerveja ao final da fervura, com eficiências de 100% (laboratório) e 80% (em casa, com um bom método/equipamento).

Incluo na lista o malte pílsen belga da Maltaria Castle, que comprei pela WE Consultoria, e cujas informações não constam no BeerTools Pro mas que obtive do Rocha, da WE.

Incluo por último o malte pílsen da Agrária, que também não consta originalmente no Beer Tool Pro, mas cujos dados me foram enviados pelo Maurício Augusto, que ganhou uma saca desse malte pelo segundo lugar na Categoria Livre no IV Concurso Nacional de Cervejas Artesanais com a sua Bitter Peace.

Tipo de malte Extrato potencial segundo BeerTools, em unidades de gravidade (gravidade específica vezes mil) a cada libra por galão Gravidade original potencial, obtida com 5Kg de pílsen em 25L de mosto ao final da fervura e 100% de eficiência Gravidade original obtida com 5Kg de pílsen em 25L de mosto ao final da fervura e 80% de eficiência

pílsen da Weyermann (Alemanha) 34 1,057 1,045

pílsen da Dingemans (Bélgica) 35 1,058 1,047

pílsen da Briess (EUA) 34,4 1,057 1,046

pílsen da Simpsons (Reino Unido) 34,9 1,058 1,047

pílsen da Castle (Bélgica) 35,9 1,060 1,048

pílsen da Agrária (Brasil) 35,3 1,059 1,047


(Observe que, por erros de arredondamento, alguns maltes com potenciais diferentes, mas próximos, aparecem na tabela com gravidades potenciais iguais.)

E para efeito de comparação, incluo abaixo os dados de outros tipos de malte, todos da Weyermann, sendo que é claro que o carahell e o carafa I não funcionariam assim sozinhos, pois não possuem enzimas para a transformação do amido.

Tipo de malte Extrato potencial segundo BeerTools, em unidades de gravidade (gravidade específica vezes mil) a cada libra por galão Gravidade original potencial, obtida com 5Kg de pílsen em 25L de mosto ao final da fervura e 100% de eficiência Gravidade original obtida com 5Kg de pílsen em 25L de mosto ao final da fervura e 80% de eficiência

viena da Weyermann (Alemanha) 34,1 1,057 1,046

melanoidina da Weyermann (Alemanha) 33,7 1,056 1,045

carahell da Weyermann (Alemanha) 30,5 1,051 1,041

carafa I da Weyermann (Alemanha) 28,3 1,047 1,038


Também devo ressaltar, novamente, que a análise pode variar de lote para lote. Portanto, quem quiser realmente ser cuidadoso, ou curioso, em relação a isso (para não dizer pedante), seria bom pedir a análise do malte para o fornecedor. O malte pílsen da Weyermann que consta acima, com um extrato potencial relativamente baixo, foi tirado do banco de dados do BeerToos Pro, e pode ser que não seja sempre assim. E seria interessante ver os dados de outros programas, que podem muito bem ser diferentes.

Por último, deve ressaltar que a análise da ficha técnica não é tão óbvia assim. O extrato potencial que nos interessa não costuma ser explicitado na ficha. Mas pode ser deduzido dos dados de extrato obtido com grão seco (moído fino ou grosso) e de umidade. A ficha abaixo é a do malte pílsen da maltaria Castle enviado pela We Consultoria (clicar na imagem para obter uma versão mais legível).
Ficha de análise do malte pílsen da Maltaria Castle

Colocando os dados de extract fine grind on dry malt (82,4%), extract difference fine-coarse (1,4%) e moisture (4,3%) no BeerTools Pro (após incluir novo malte na lista de ingredientes), obtemos o extrato potencial de 35,9 listado acima. Imagino que os outros programas também façam isso.

Ou o cálculo pode ser feito diretamente com uma fórmula apropriada. Isso até nos ajuda a entender melhor o processo. No caso do malte pílsen belga da Castle, temos o extrato de moagem fina (extract fine grind on dry malt) de

DBFG=82,4%=0,824

e a diferença relativa de extrato fino-grosso (extract difference fine-coarse) de

FGCG=1,4%=0,014,

o que nos dá um extrato de moagem grossa (extract coarse grind on dry malt) de

DBCG=DBFG/(1+FGCG)=81,26%=0,8126.

A umidade, por outro lado, ocupa uma certa porcentagem do peso do malte e também deve ser descontada, nos dando a porcentagem de material solúvel no malte. No caso do malte pílsen belga, temos

Umidade=4,3%=0,043,

logo temos a porcentagem de material solúvel no malte dada por

AICG=DBCG*(100%-Umidade)=81,26%*95,7%=77,76%=0,7776.

Essa quantidade de material solúvel irá contribuir com uma densidade original no malte a uma certa razão apropriada. Em unidades de gravidade, essa contribuição é obtida multiplicando-se a porcentagem de material solúvel pelo fator 46,2, o que no caso do malte pílsen belga nos dá o extrato potencial (em pontos de gravidade a cada libra de malte por galão de mosto)

Extrato Potencial = AICG x 46,2 = 0,7776 x 46,2 = 35,9.

No caso do malte pílsen da Agrária, o Maurício me enviou a seguinte ficha de avaliação:
Ficha de Avaliação do Malte Pilsen Agraria

Com os dados

BDFG=81,5%, FGCG=1,6% e Umidade=4,7%,

encontramos, para esse malte,

BDCG=80,2%, AICG=76,44% e Extrato Potencial = 35,3.

Essas parecem ser exatamente as contas feitas pelo Beer Tools Pro.

A página Understanding Malt Analysis Sheets — How to Become Fluent in Malt Analysis Interpretation indica uma outra fórmula para obter o extrato potencial desses dados, mas essa fórmula é uma aproximação simplificada das contas acima e dá um valor diferente para o extrato potencial desses maltes (35,5 pontos de gravidade no caso do malte pílsen belga, ao invés de 35,9). Um erro grosseiro na fórmula deles é subtrair a umidade do extrato de moagem grossa, ao invés de tirar a proporção como feito acima. Por outro lado, essa página é bem interessante e explica outros dados importantes da ficha técnica.

Com os dados acima para o malte pílsen belga, posso por exemplo rever os cálculos da Lótus (veja artigo Lótus, a primeira India Black Ale do Brasil?) e consertar a eficiência indicada pelo BeerTools Pro de 102%, porque tinha usado os dados de uma malte pílsen com extrato potencial mais baixo que o do malte pílsen belga da Castle.

Para mais detalhes sobre a conceito de eficiência do seu equipamento/método, veja o artigo Bazooka, eficiência e uma Porter.

Obter a ficha de avaliação de malte é útil não só para encontrar o extrato potencial do malte, mas também para obter a informação sobre a coloração dada pelo malte. Isso é particularmente relevante para maltes caramelos e tostados, onde a cor varia muito mesmo entre lotes diferentes do mesmo tipo de malte de uma maltaria e podem afetar bastante a cor final da cerveja.

Bom, eu sei que esse artigo está um pouco técnico demais, mas espero que seja interessante para alguns.

Até a próxima!

Lótus, a primeira India Black Ale do Brasil?

Feche os olhos. Erga o copo. Sinta o aroma… lúpulo, muito lúpulo! Ah, que bela American IPA. Beba um gole… hmm, mais lúpulo e… um torrado gostoso… como assim? Não é uma IPA? Não!? Abra os olhos. Bem escura! Seria uma stout? Definitivamente não é uma lupulagem de Oatmeal Stout. Muito menos de Dry Stout. O mais próximo seria uma American Stout, mas a presença do lúpulo é muito mais forte.

Aparentemente esta é uma nova febre nos EUA, no que parece ser um novo estilo sendo criado (veja artigo Is Black IPA an emerging style?). Esse estilo tem sido chamado de Dark IPA, Black IPA ou IBA, de India Black Ale. Acho IBA mais apropriado, apesar de “iba” soar um pouco estranho. Se vai realmente virar um novo estilo na próxima versão do BJCP, só esperando para ver. Além disso, parece que há várias versões dessa idéia, umas em que o malte torrado só serve para escurecer a cerveja, o que me parece sem graça, e outras em que o malte torrado é mais evidente no sabor, o que seria uma mudança mais significativa e digna de um denominação própria de estilo. E definitivamente não é uma American Stout, pela lupulagem bem mais presente.

A primeira vez que soube dessa IPA foi no ano passado, no bar-cervejaria 21st Amendment, em San Francisco, que descrevi no artigo sobre o Festival de Cerveja Envelhecida em Madeira. Não tive dúvidas em pedir essa cerveja logo de cara, que eles batizaram de Back in Black. E repeti, de tão gostosa que achei. A sensação foi a descrita acima. Fechando os olhos, lembra inicialmente uma IPA, mas depois vem o torrado do malte, combinando perfeitamente. E junto com isso aquele sensação de “como é que ninguém tinha pensado nisso e esses caras ainda continuam nos surpreendendo com coisas assim?!?!”

Gostei tanto que trouxe, incentivado pelo Pete Slosberg, um growler dela de volta pra cá, tirado diretamente da chopeira. Conservei na geladeira o máximo possível e a cerveja resistiu por quase um mês sem problema algum. Foi degustada na ceia de final de ano da ACervA Carioca, ou melhor, na van que levou alguns sortudos para lá.

Van da Ceia de Natal da Acerva   Dez2008   14

Desde então nutri a idéia de tentar fazer a minha versão de India Black Ale. Consegui finalmente fazer a leva, no final de agosto.

Não achei nenhuma receita de IBA na internet e tive que me inspirar apenas na impressão da Back in Black que restava na minha memória. Usei em torno de 4% de cevada torrada e 2% de malte chocolate. E apenas 2% de malte caramelo, para uma cerveja mais seca. Tive como objetivo, mais ou menos, os parâmetros de uma American Stout ou de uma American IPA modesta, exceto pela cor, é claro. E não queria muito corpo, então planejei colocar açúcar, mas a eficiência foi tão absurdamente boa (em torno de 100%!), que acabei sem colocar esse adjunto. A gravidade original ficou em 1.060. A lupulagem foi mais de aroma e sabor, com o amargor sendo relativamente modesto para uma IPA, em torno de 46 IBUs, mas ainda dentro dos parâmetros. Usei apenas Cascade e Centennial na fervura. Também fiz dry-hopping, mas aí achei que o que tinha me restado de Cascade e Centennial era pouco e acabei colocando Challenger também, em cima da hora. Acho que o efeito disso no sabor e no aroma de lúpulo saiu um pouco do que eu buscava, que era um aroma e sabor mais cítricos, mas tudo bem, ainda assim ficou muito boa. O fermento usado foi o London, pra variar (único fermento que usei esse ano!), e a atenuação ficou em 74%, dando uma FG de 1.016, e um teor alcoólico de 5,8%.

O resultado final foi bastante positivo. Aroma e, principalmente, sabor evidentes de dry-hopping. Um torrado discreto e também um pouco de chocolate e café no sabor, mesclando bem com o lúpulo. Ficou com um pouco mais de corpo do que eu queria e o aroma de lúpulo não ficou tão forte.

Para as próximas versões, acho que tenho que ter mais cuidado com a eficiência, para poder colocar açúcar e ter menos corpo. Também acho que devo caprichar mais na lupulagem de aroma no final da fervura e diminuir o dry-hopping. E usar mais Cascade ou outra variedade de lúpulo mais apropriada para dry-hopping, evitando o Challenger. De qualquer maneira, foi uma deliciosa experiência.

A cerveja foi mais do que aprovada e elogiada em uma prévia para alguns membros da ACervA Carioca. E para os que forem ao Festival de Premiação do IV Concurso Nacional de Cervejas Artesanais, fiquem atentos, que servirei 18L dessa cerveja, batizada de Lótus. Um brinde!
Lotus

Injustus – revisitando o método de decocção

No início deste ano, a ACervA Carioca planejou um evento para associados que seria inicialmente uma mistura de experimento e degustação mas que acabou ganhando corpo para virar uma mini-competição. Essa competição seria para selecionar uma cerveja para ser levada para a feira Brasil Brau. O estilo escolhido foi weizen (veja Weizen BJCP-15A ou a tradução na página da ACervA Paulista, de acordo com a classificação dos estilos pelo BJCP 2008).

A idéia era para vários associados utilizarem a mesma receita, para comparar os métodos e equipamentos de cada um. Mas acabou que o plano não deu certo, por conta da criatividade e rebeldia de cada um, e que em grande parte nos motivam. A primeira “revolta” foi em relação ao fermento, com dois escolhidos: o Weihenstephan Weizen W3068 da Wyeast e o Hefeweizen IV da White Labs. Em seguida, foram as diferentes composições de maltes e lúpulos. Por último, os métodos de brassagem, podendo ser de infusão, em escalas com aquecimento direto, ou decocção. A propagação dos fermentos para a galera ficou por conta do Leonardo Botto, que dispensa apresentações.

A minha fiz com meio a meio de malte pílsen e malte de trigo, lúpulos diversos (do que tinha) só pra amargor (60min), o fermento Hefeweizen IV da White Labs, e decocção simples.

Aproveitei para estrear um novo “brinquedinho”, que é um visor de nível externo acoplado à panela de fervura:
Panela com termômetro e visor de nível
Detalhe do visor de nível

Esse visor (20” sight gauge da MoreBeer com adaptador) facilita muito para saber o volume do mosto no início e final da fervura e ajudar a acertar a cerveja de acordo com a eficiência obtida.

Batizei essa cerveja de Injustos, só para fazer uma graça com a Justus, uma cerveja de trigo da cervejaria alemã Pfungstädter.

No total foram seis cervejas. A grande campeã foi a do Mauro Nogueira, que era a com menos aroma de banana, destacando bastante o fenólico. Parabéns Mauro!!! O “prêmio” foi mais trabalho para o Mauro, em uma suposta leva coletiva em que ele teve todo o trabalho de repetir a receita, em outro encontro, em maior volume, e levar a nova cerveja com a receita campeã para a Brasil Brau, como representante da ACervA Carioca.

A cerveja do Mauro também foi feita usando decocção e o fermento Hefeweizen IV da White Labs. A composição de maltes foi diferente, com 50% de malte viena, 45% de malte de trigo e 5% de carawheat. A decocção também foi um pouco diferente, começando a brassagem apenas com o trigo, fazendo um repouso protéico a 55C por 30 minutos, depois adicionando o viena e subindo a temperatura do mosto para 65C. Nesse momento, um terço do mosto foi retirado para a decocção, fervendo por 20min e voltando para o mosto principal, levando a temperatura do mosto todo para 70C, repousando aí por 30min. O mash-out foi feito a 78C. A OG ficou em 1.053 e a FG em 1.018, dando uma atenuação de 66% e teor alcoólico de 4,6% abv. A lupulagem foi a 60min para dar 13,4 IBUs. A fermentação foi a 20C.

Aqui está o campeão Mauro degustando as cervejas:
Mauro provando as cervejas do concurso

Quanto à mosturação que fiz para a minha cerveja, o mosto teve um curto repouso de 15min a 45C, para aumentar a produção de ácido ferúlico, precursor do fenólico (e.g. cravo) produzido na fermentação, depois um repouso protéico de 30min a 50C. Ao final desse repouso, uma decocção foi feita com um quarto do mosto, com a decocção fazendo uma parada de sacarificação a 68C por 20min e fervura por 30min, antes de retornar ao mosto principal. Enquanto isso, o mosto principal foi aquecido até um patamar baixo de sacarificação (65C), ficando aí por 45min, até a decocção ser acrescentada e o mosto ser aquecido até o patamar da alfa-amilase (71C), repousando por 40min. A decocção de um quarto de volume não foi suficiente para subir de 65C para 71C, tive que continuar usando fogo direto; o certo seria ter usado um terço, pelo menos. É típico para cervejas de trigo usar dois patamares de sacarificação, um baixo (63-65C), por algo entre 15 e 40min, dependendo do grau de fermentabilidade que se deseja ter (mais tempo, mais fermentável) e outro alto (70-72C), até completar a sacarificação. A fermentação foi a uma temperatura baixa, ficando na faixa de 17-18C, na tentativa de reduzir a produção de ésteres e, em particular, o aroma de banana. A OG ficou em 1.050 e a FG em 1.014, dando uma atenuação de 72% e teor alcoólico de 4,7%.

Em relação a minha, gostei que ficou com mais cravo e menos banana comparada com a primeira que fiz, no ano passado, mas ainda assim ficou frutada, com um certo aroma de banana e, principalmente, tutti-fruti (bubblegum). É característica desse fermento ter um certo aroma de banana e tutti-frutti mas com aroma mais forte de cravo, só que para isso a fermentação deve ser adequada. Uma parte crucial é a temperatura inicial da fermentação, quando da inoculação do fermento. Nessa fase inicial, uma temperatura alta (em torno de 22C ou mais) favorece um crescimento rápido do fermento, que por sua vez aumenta a produção de álcool isoamílico, que é um precursor do acetato de isoamila, principal componente do aroma de banana. Para diminuir o aroma de banana, é necessário reduzir bastante a temperatura inicial de fermentação. Em geral, com o chiller de imersão, consigo diminuir a temperatura para algo em torno de 24C, depois inoculo o fermento e coloco o fermentador na geladeira. Leva várias horas para a temperatura chegar em torno de 18C e enquanto isso a produção dos precursores do aroma de banana já podem ter sido criados em boa quantidade.

A produção do fenólico não é tão dependente diretamente da temperatura, ela depende mais do repouso de ácido ferúlico, no entanto há uma dependência indireta, pois uma maior produção de ésteres, a temperaturas altas, tende a esconder a presença do fenólico. Uma regra comumente usada na produção de weizens em microcervejarias é que a soma da temperatura de inoculação e a temperatura de fermentação deve ser em torno de 30C. Seguindo essa regra, para uma fermentação em torno de 18C, a temperatura de inoculação deveria ser de 12C! Estou longe disso e já me contentaria se conseguisse reduzir diretamente para a temperatura de fermentação, mas pra isso tenho que melhorar o meu método de resfriamento.

Além dessa questão do aroma, a cerveja não ficou tão seca quanto gostaria. A atenuação foi de apenas 72% (o normal para esse fermento, segundo a White Labs, é entre 73 e 80%, e o esperado para weizens é em torno de 80%), mas já foi melhor que a do ano passado, que ficou em 67%. A aeração com bomba de aquário foi caprichada; acho que a baixa atenuação foi por causa da mosturação, em que a decocção não fez um repouso a uma temperatura baixa de sacarificação, parando primeiro em 68C e, mais tarde, em 71C. Além da questão da baixa atenuação, o repouso de ácido ferúlico, para a produção de precursores do fenólico, foi muito curto. Acho que as correções para a próxima leva seriam alterar a decocção para gerar um mosto mais fermentável e cerveja mais seca, estender o tempo de repouso de ácido ferúlico para pelo menos 30min, de preferência 45min ou 1h, e reduzir a temperatura inicial do mosto para em torno de 18C ou menos, para reduzir a produção de precursores do aroma de banana. A decocção poderia ser do repouso protéico (50C) para a sacarificação a uma temperatura baixa (63-65C) e repousando nesse patamar durante uns 30-40min, depois subir a temperatura para 70C e repousar aí por outros 30-40min.

Em resumo, as minhas sugestões para a fabricação de uma weizen são as seguintes:

  • Entre 50% e 70% de malte de trigo e o resto de malte pílsen;
  • Repouso de ácido ferúlico em torno de 44-45C por um tempo entre 30min e 1h;
  • Repouso protéico em torno de 50-52C por pelo menos 30min;
  • Sacarificação para um mosto bem fermentável (e.g. o tempo todo a 65C, ou um bom tempo a 63-65C e mais um tanto a 70-72C);
  • De preferência uma decocção, que pode ser do repouso protéico (50-52C) para a sacarificação/beta-amilase (63-65C), ou da beta-amilase (63-65C) para a alfa-amilase (70-72C). No primeiro caso, a decocção deve fazer um curto repouso (20min) no patamar da alfa-amilase (70-72C). No segundo caso, a decocção só deve ser feita após pelo menos 20min no patamar da beta-amilase. Em ambos os casos, a decocção deve ser de um terço “grosso” do mosto e a fervura deve ser de uns 15-20min;
  • Lupulagem só de amargor, por uns 60min;
  • Fermentação a uma temperatura baixa desde o início, com um fermento adequado para trigo, para reduzir a produção de ésteres e realçar o fenólico.

O perfil de uma decocção apropriada para essa mosturação é o seguinte:
Perfil decocção

Além disso, lembro que os parâmetros para uma weizen segundo o BJPC 2008 são de uma OG de 1.044-1.052, FG de 1.010-1.014 e IBU 8-15. O IBU deve ser proporcional à OG. Quanto maior a OG, maior o IBU, para manter o equilíbrio.

Junto com o evento, batizado de Biergarten, fiquei de fazer uma palestra sobre decocção. Já tinha escrito um artigo no blog, Weizenbier e decocção, sobre isso, mas a palestra foi ótima para me forçar a estudar mais sobre o assunto, esclarecer alguns pontos e divulgar melhor o método. Preparei, junto com isso, uma apostila e uma planilha para montar os vários gráficos da decocção, que podem ser encontradas na página da ACervA Carioca, na seção “Como fazer cerveja?” (clique aqui para baixar apostila e aqui para a planilha).

Galera concentrada

Para completar, incluo abaixo uma calculadora para achar o volume de mosto da decocção necessário para uma determinada mudança de patamar de temperatura. Para maiores detalhes sobre isso e, em particular, sobre o parâmetro de ajuste da decocção e o volume específico dos grãos, vejam o texto da apostila.

Quantidade de grãos para a mosturação

Kg

Volume de água para a mosturação

L

Volume específico dos grãos

L/Kg

Volume total do mosto (principal + decocção)

L

Temperatura atual do mosto

C

Volume da decocção

L

Temperatura (ebulição) da decocção

L

Parâmetro de ajuste

Temperatura final

C