I Concurso Paulista de Cerveja Caseira e Festival de Inverno da Acerva Paulista

A maioria dos meus artigos é sobre alguma coisa técnica de cerveja mas nem todos. E hoje abro nova exceção para escrever um pouquinho sobre esse maravilhoso final de semana que passou.

Não há muito o que acrescentar, já há várias notícias e artigos sobre o concurso e o festival, que foram de grande sucesso. Mas não poderia deixar de registrar aqui, também, que o concurso e festival de inverno foram muuuuito bacanas e dar os meus devidos parabéns e agradecimentos.

Parabenizo, em primeiro lugar, o Alexandre e a Janaína, pelo concurso e pela grande festa que fizeram no ambiente mais que apropriado de sua microcervejaria, a Cervejaria Bamberg, de Votorantim. Agradeço pela oportunidade de avaliar as cervejas do concurso, que foi uma grata experiência. E agradeço, principalmente, pela homenagem carinhosa que fizeram a mim, ao Botto e ao Mauro, nos agraciando com a primeira edição do Prêmio Wilhelm IV, pelos “serviços prestados à Cultura Cervejeira do Brasil!”

Eu devia ter desconfiado! No início do ano passado, o Alexandre nos convidou dizendo que seria muito legal juntar nós três como jurados… E o bacana é que, como o Mauro observou, nós três estávamos juntos, por coincidência, quando o Alexandre anunciou o prêmio.

A homenagem foi inesperada e nos deixou visivelmente emocionados.
Mauro, Botto e Eu, na hora do anúncio do prêmio
Recebendo o prêmio
Exibindo o prêmio

Parabenizo, também, a ACervA Paulista, pela iniciativa em organizar o concurso e o festival em conjunto com a Bamberg e pela organização de primeira classe que fizeram do Festival. Foi uma festa impecável, onde nada saiu errado. Como a festa começou cedo, não houve avanço no buffet, e a comida foi servida sem problemas e ao longo da festa toda. A cerveja foi farta e de ótima qualidade. O espaço foi amplo e agradável.

Aquela primeira visão da fileira de costelas foi impressionante.
Costelas!!!

E depois a parede de chopeiras foi de deixar babando, e que o Mauro começou fazendo as honras.
Mauro e as chopeiras

Provei, de fato, todas as cervejas caseiras servidas nas chopeiras. Isso foi motivado pela fichinha que eles nos deram, onde uma das perguntas era sobre as três melhores cervejas na nossa opinião. Aí só provando, né!? Cravei uma Belgian Strong Dark Ale em primeiro, que esqueci de quem era. Ouvi outros elogiando essa também. Aliás, o nível das cervejas estava excelente!

Tinham três American IPAs muito boas (uma delas a segunda colocada no concurso e outra do pessoal do Lamas Bier), uma Dry Stout clássica do Alex da Ros, a Oatmeal Stout de primeira da Tati, uma Irish Red deliciosa também do pessoal do Lamas, uma Belgian Specialty Ale interessante do Renato de Mogi (que ele chamou de Tripel, e que tinha anis, cravo e outras coisas, bem interessante), uma Barley Wine com favas de baunilha e maturada em carvalho do Philip, e muitas outras que já não lembro mais. Tinha uma lista bacana de todas as cervejas rolando na festa que seria legal postar em algum blog.

Esse “exercício” de escolher a melhor serviu para tirar uma dúvida que tinha, sobre a avaliação do estilo livre. Posso dizer que nem foi tão difícil escolher a minha preferida. Por um lado, certamente é difícil fazer uma escolha “de acordo com o estilo”. Seria muito difícil eu escolher a Irish Red ou a Dry Stout por mais fiéis que elas estivessem aos estilos e por mais que elas tivessem mais drinkability e eu passasse mais tempo bebendo delas. Certamente uma cerveja com mais, digamos assim, personalidade leva mais vantagem nessa avaliação. Por outro lado, dentre várias cervejas de personalidade, como a Belgian Specialty Ale, a Barley Wine com baunilha e maturada em carvalho, as IPAs e Oatmeal ou Imperial Stouts e a Belgian Dark Strong Ale, é possível sim fazer uma escolha sem muitas dificuldades. Para mim, a Belgian Strong Dark Ale foi a que superou as outras em termos de equilíbrio e complexidade, tanto de aromas como de sabores, e foi a que eu escolhi, mesmo não sendo, no momento, um dos meus estilos favoritos de cerveja.

Eu que inicialmente sempre fui defensor do estilo livre, andei um tanto em dúvida, mas agora volto a ficar animado com ele. Não sei bem a melhor maneira de avaliá-lo, mas um dia chegaremos lá. Acho que eu sempre achei difícil a minha, ou alguma cerveja de algum amigo ou amiga, ganhar, mas dessa vez que eu estava julgando e que estava isento e não conhecia nenhuma cerveja de antemão, as coisas se revelaram com mais clareza na minha frente. E, como em qualquer concurso, a “melhor” cerveja é um conceito um tanto fictício e o que importa é que a cerveja escolhida como a melhor é, no mínimo, uma excelente cerveja e certamente uma das melhores por qualquer critério objetivo, então bola pra frente. O que importa é incentivar a cultura cervejeira.

Uma coisa que achei um barato no festival é que tinha um clima dos encontros de cerveja que fui nos EUA, com aquele dia ensolarado, a tenda armada em algum lugar ao lado de fora, as várias chopeiras a gelo, e muita gente em volta se divertindo. A única coisa diferente era o som alto; lá o som costuma ser um pouco mais baixo e a conversa flui um pouco mais fácil. Mas é só questão de gosto. Curtimos muito.
Mauro, eu, Lu e Duda

A festa rolou com muito alto astral, muita amizade, muita democracia, muito espírito de união e definitivamente sem fins lucrativos. É com muito prazer que vejo a ACervA Paulista seguindo esses preceitos tão fundamentais para o crescimento da cultura cervejeira! E é por isso que essa cultura está crescendo a passos largos nesse estado. Um brinde!
Um brinde!

Parabenizo também o Marcelo Carneiro, da Cervejaria Colorado, e o Marco Falcone, da Falke Bier, que prestigiaram o evento. O Marco trouxe a sua novidade F5, uma Bohemian Pilsener deliciosa. Tomei algumas tulipas dela e pelo jeito ele tomou muitas! Há dezenas de microcervejarias no estado e centenas no país (estou exagerando?) mas às vezes nem parece que tem tanto. Parabéns a esses três que estão sempre juntos e nos apoiando!
Marcelo, Marco e Alexandre

Quanto ao concurso, foi na véspera, também na fábrica da Bamberg. Foi a minha primeira experiência como jurado e foi muito bacana. No meu grupo de jurados estavam o Maurício do Brejas, o Afonso Landini da Turma da Cerveja Artesanal, o Feijão do Obiercevando e o Edu Passarelli do Melograno e foi uma delícia trocar experiência com eles.
Degustando e avaliando

A Duda, a Lu e a Tati da Female Carioca foram providenciais em fazer a degustação ocorrer sem maiores problemas. As três primeiras escolhidas do conjunto de jurados foram também as minhas três primeiras, na mesma ordem. Os cervejeiros vencedores foram Guilherme de Santi, Paulo Ferro e Alex Viera, respectivamente (e que aparecem na foto abaixo da direita para a esquerda).
Os vencedores

Em uma nota mais particular, agradeço imensamente ao David e à Thais, por receberam a mim e à Duda em sua casa em Campinas, com tanto carinho, e cuidarem tão bem da gente durante todo o final de semana. Agradeço também ao Christoph, que esteve sempre presente e também nos ajudou muito. E por coincidência, David e Thais acolheram ao Botto e ao Mauro, junto com a Tati e a Lu, de sexta pra sábado também. Já tava tudo armado!

Valeu pessoal!

PS: Agradecimentos à Lu e à Duda pelas fotos, mesmo que tenha sido sem o consentimento delas… ;)

Festival de Cerveja Envelhecida em Madeira da Costa Oeste dos EUA e outras aventuras

Chegamos cedo. Um bar de esquina, em uma rua calma, poucas mesas ocupadas e um salão relativamente pequeno. Espalhados pelo bar, cartazes com nomes como “Wet Hopsickle 2008”, “Older Viscosity 2008”, “Beatification”, “Train Wreck of Flavor”, “Lunacy”, “Smoke on the Lager”, “Double Bastard Ale” e assim por diante. Nada menos do que 57 cervejas envelhecidas de alguma forma em madeira e todas servidas na pressão!!! Era o festival de cerveja envelhecida em madeira da costa oeste dos Estados Unidos, organizado pelo Bistro, “Home of Extreme Beers”. No original, “The Bistro’s 3rd Annual West Coast Barrel Aged Beer Festival”.

Devo a ida ao festival a Pete Slosberg, fundador da Pete’s Brewing Company (fabricante da Pete’s Wicked Ale), um dos pioneiros em cervejas artesanais nos EUA. Ele esteve no Rio duas vezes recentemente e entrou em contato com a ACervA Carioca, chegando a participar de um dos nossos encontros. É muito simpático, ótimo de papo e tem várias histórias. Escreveu um livro muito bacana e divertido, com vários fatos curiosos, intitulado Beer for Pete’s Sake: The Wicked Adventures of a Brewing Maverick.

Vim para os EUA a trabalho, por dois meses, e o Pete me convidou pra dar um pulo na California, onde mora; mais precisamente, Los Altos, perto de San Francisco. E quando me falou do festival, não pensei duas vezes.

Na foto abaixo, eu e Pete (com a camisa da ACervA Carioca!), no Bistro, iniciando os “trabalhos”.
Eu e Pete no Bistro



Pra começar, US$35 de entrada por dez tickets, cada ticket dando direito a 2 fl. oz. (59ml) de uma das 57 cervejas. Fui lá com o Pete e um amigo dele, Arie. Experimentamos uma boa parte das cervejas, e a variedade era impressionante. Também foi impressionante ver a fileira de torneiras pra servir os chopps.
Arie no meio


Fileira de torneiras
Muita cerveja!

Fiquei espantado de ver que quase metade das cervejas eram ácidas, fermentadas com pediococcus, lactobacillus e/ou outras leveduras selvagens e bactérias, algumas pertencentes às floras naturais dos barris, além de brettanomyces e do fermento ale ou lager. E impressionado de ver como elas eram apreciadas. De fato, eram as favoritas do Pete e do Arie, que praticamente só pegaram delas. Não sou tão fã assim (ainda) dessas cervejas, mas algumas eram de fato muito boas. Especialmente a que foi eleita a favorita do público, a Vindecation, uma oatmeal stout com 11% de álcool em volume, envelhecida por 12 meses em barril de brandy, com adição de cerejas e algumas bactérias maneiras. E o nome da cerveja ilustra bastante o espírito brincalhão e amigável das pessoas envolvidas nessa cultura. Essa cerveja foi feita por Craig Cauwels, da Schooner’s Grille and Brewery, um brewpub (cervejaria-bar) a noroeste de San Francisco, e batizado em homenagem a Vinnie Cilurzo, cervejeiro e dono da Russian River, em Santa Rosa, bem ao norte de San Francisco, bastante famosa por suas cervejas potentes e lupuladas. Vindecation é um acrônimo para VInnie DEserves a vaCATION! (Vinnie mecere férias!) Hahahahaha!!!!

Vinnie é creditado por ter inventado o estilo Double IPA ou Imperial IPA, e tem uma série de cervejas belgas com nomes terminando em “tion”: Damnation (Strong Golden Ale 7.0% ABV), Salvation (Strong Dark Ale, 9.0%ABV), Perdition (Biere de Sonoma, 6.3% ABV), Redemption (Blonde Ale, 5.0% ABV), Sanctification (100% Brettanomyces, 6.25%ABV), Deification (Pale Ale with Brett, 6.35%ABV), Benediction (Abbey Ale, 6.75%ABV), Erudition (Saison with Brett, 6.5%ABV), Rejection (Belgian Inspired Black Beer for Valentine’s Day, 6.1%ABV). A Russian River esteve presente no festival com três cervejas: Beatification (fermentado 100% espontaneamente com a flora diversa de barris antigos), Consecration (ale escura envelhecida por seis meses em barris de cabernet sauvigon, com passas, brettanomyces, lactobacillus e pediococcus) e a Santification.

A propósito, o Pete, com a sua Pete’s Wicked Ale, leva a fama de ter sido fundamental para estabelecer o estilo American Brown Ale como um estilo novo em competições e viável comercialmente. Estão aí dois exemplos de estilos criados pela incrível escola americana de cerveja, empolgante e inspiradora.

Para continuar nas cervejas ácidas, muitas variações. Algumas stouts, como a Vindecation, algumas barley-wines, várias belgas, e duas “wheat wines” (vinhos de trigo). Provei das duas wheat wines, de curiosidade, e eram bem boas, mas infelizmente não tinham muito sinal de trigo. Além da Vindecation, que levou cereja, uma levou framboesa, outra, pêssego, e outra, grãos de café da Amazônia e cacau da Martinica. Haja imaginação! Aliás, essa com café da Amazônia, denominada Wildcat Bourbon Barrel Sour Coffee Stout, foi a coisa mais curiosa. O autor da cerveja, da cervejaria-bar Valley Brewing, disse que o café é bem particular e dá um sabor de pimenta na cerveja. De fato, é pimenta pura! Já tinha lido sobre cervejas com pimenta mesmo e não imaginava se gostaria delas, pois não sou muito fã de pimenta. Mas o sabor caiu muito bem; uma delícia! E isso do sabor da pimenta vir do café é impressionante.

Das cervejas não-azedas, tinha também de tudo. Stouts, Porters, Imperial Stouts, Barley Wines, IPAs, Double IPAs, Browns, e até uma Smoked Lager, pra não dizer que só tinha ale. Os barris, ou em alguns casos pedaços de madeira para infusão, usados no envelhecimento, eram dos mais diversos: carvalho, carvalho francês, carvalho húngaro, whisky, whisky de centeio, bourbon, Jim Beam, Jack Daniels, brandy, vinho do porto, cabernet sauvignon, merlot e chardonnay.

A minha favorita, que levou o meu voto, foi a OTIS, de Steve Donohue, da cervejaria-bar Firehouse Grill and Brewery, em Sunnyvale, bem perto de Los Altos. Uma Imperial Stout com 11% álcool em volume e envelhecida em barris de bourbon de carvalho por quatro meses. Fiquei muito feliz em saber que ela ficou em terceiro lugar entre as favoritas do público! Isso quer dizer que ela foi a melhor pra boa parte do público! Falei com o Steve, que foi muito simpático e me chamou pra dar um pulo na cervejaria-bar. Fui lá na segunda-feira, com o Pete, e o Steve serviu uma taça de cada umas das cervejas deles. A OTIS não faz parte da lista e, pelo que entendi, é “apenas” mais uma das experiências, ou “brincadeiras”, do Steve. A OTIS estava no fim, mas ele foi bastante generoso e me deus algumas garrafas!!!

Abaixo uma foto minha com o Steve, na Firehouse, com quatro barris contendo novas experiências.
Steve e eu

O Pete, com toda a experiência dele, sugeriu levar pro festival a Demoiselle que levei pra ele, pra fazer uma graça lá. Fez sucesso, com direito à seguinte frase do dono do Bistro, Vic Kralj, enviada posteriormente por e-mail pro Pete: “Pete, Thank you for your kind words, I too had a great time. Your friend from Brazil made 1 damm good porter. Until the next time. Cheers, V”. Na foto abaixo estamos nós três com a Demoiselle.
Pete, eu e Vic

Mais fotos do evento aqui e aqui. E mais informações aqui.

Voltando do festival, o Pete recebeu um telefone de um dos membros de um clube de cervejeiros caseiros da região, o Silicon Valley Sudzers, dizendo que eles teriam um encontro naquele mesmo dia, à noite, e ele estava convidado. Que coincidência! Quem ligou foi o anfitrião do encontro, Nick, um dos caras mais simpáticos que já conheci. Estava com receio de abusar da boa vontade do Pete, mas felizmente ele topou me levar lá, amarradão.

Encontro dos cervejeiros caseiros Silicon Valley Sudzer

Na foto acima, Nick é o do canto direito inferior. Depois troquei algumas mensagens com o Dan, de verde, que levou algumas cervejas suas pra lá, algumas delas premiadas em alguns concursos recentes. A cerveja mais curiosa que provei dele foi uma tal de Sticke, um estilo alemão tipo versão mais forte de altbier. Tinha uma sabor delicioso de malte que desconfiei ser de uma boa quantidade de malte munique. Ele não lembrava de cabeça, mas depois me enviou a receita: 67% malte munique!

O clube tem umas coisas interessantes. Antes de começar a bebedeira, eles sentam todos corportadamente em volta de um mesa e discutem algumas coisas da associação, fazem alguns anúncios e abrem para uma “apresentação de cervejas”. Na parte de anúncio, contam, entre outras coisas, como foram os últimos eventos. Um deles, uma excursão em ônibus alugado para algumas microcervejarias da região. Outra, de dar mais água na boca ainda, a excursão ao Northern California Homebrewers Festival (fotos aqui), realizado em um Parque (Lake Francis Resort), com centenas de homebrewers acampando! Imaginem a farra! Precisamos fazer excursões assim!

Na parte de apresentação de cervejas, quem quiser leva uma garrafa de alguma cerveja, geralmente caseira, mas não necessariamente, e serve um pouquinho pra cada um. Todos fazem comentários e dão um retorno para o cervejeiro. Só então a bebedeira é liberada. Aproveitei para apresentar a Intrepidus Nocturnum II. Antes de ir pra lá, tinha comentado com o Pete que queria comparar a IN II com a World Wide Stout, uma imperial stout de 18% da Dogfish Head. E não é que ele tinha uma garrafinha dela guardada em sua adega e sugeriu levar pro encontro! Levamos as duas e a comparação foi uma delícia, em parte pra ver como elas têm coisas em comum (nunca tinha provado dela antes) e em parte pra ver que a IN II estava bem melhor, por ter um sabor mais complexo e ser mais seca. Foi uma opinião unânime. Sucesso total! Imaginem, um homebrewing brasileiro chegando lá com uma imperial stout de 15% e desbancando uma cerveja extrema da Dogfish Head!!!! Parabéns Mauro!

Todos do clube foram muito simpáticos. Foi um barato.

No dia seguinte, almoçamos na cervejaria-bar 21st Amendment, em San Francisco. Essa cervejaria tem a particularidade de ser uma micro-cervejaria que comercializa duas de suas cervejas em lata. O Pete já tinha levado umas latinhas dela pro Rio, mas nesse dia tomamos na pressão. Me chamou a atenção uma cerveja nova deles, Dark IPA. Nunca tinha visto uma assim. Na hora pensei que seria uma Stout bem lupulada e o nome era só jogada de marketing. Mas na verdade ela tem, de fato, muito em comum com IPAs e acho que Dark IPA faz muito mais jus à cerveja. Excelente! Gostei tanto que o Pete sugeriu pegar um growler (2 litros) dela pra levar pra casa. Pensei no peso, mas valia a pena. E eles também não cobraram. É bom estar em boa companhia!

Sem contar com as preciosidades que o próprio Pete me deu pra levar pra casa…

Depois passamos no Toronado, um bar em San Francisco com uma quantidade absurda de cervejas na pressão (umas 50 no dia que fui), e que em meados de fevereiro vai fazer também o seu festival, esse de Barley Wine! Clique na imagem abaixo para ampliar e ter uma idéia das cervejas, apesar do reflexo.
Bar Toronado

Terminamos a noite comendo um caranguejo maravilhoso e típico de San Francisco (“Dungeness Crab”)! Era o início da estação de pesca.

No dia seguinta, ainda passamos na famosa loja MoreBeer. Não tenho nem mais fôlego pra falar sobre isso. Só sei que o Pete comentou com o dono que eu parecia uma criança numa loja de doce! E não resisti e saí de lá com um trocador de calor Shirron Plate Chiller.

Bom, se isso não foi suficiente pra vocês terem uma idéia de como é o cenário de cervejas artesanais na região, dêem uma olhada no Beer Map de San Francisco. Cliquem na legenda para ver o que tem lá de cervejarias e cervejarias-bar. Vejam também a quantidade de lojas pra cervejeiros caseiros. É a minha Pasárgada! Tudo bem que pode não ser região com a maior densidade de cervejarias por habitante (veja o artigo muito bacana A Pasárgada Alemã da Tatiana, do blog das FemAles Cariocas, sobre a região da Francônia, na Alemanha), mas não duvido que seja uma das cidades com a maior variedade de cervejas maravilhosas. O Beer Map lista 475 cervejarias e cervejarias-bar na região do Pacífico nos EUA, mas essa área é muito maior que a Francônia. O Beer Map também lista 345 cervejarias e cervejarias-bar em toda a Alemanha, mas isso pode não estar completo.

Pra terminar, o Pete ainda me ensinou a fazer chocolate no último dia. Preciso dizer mais?
Maquina pra derreter o chocolate da maneira certa
Pete enchendo os moldes com chocolate
Soltando o chocolate dos moldes

Fui pra San Francisco com a música do Led Zeppelin na cabeça: “Someone told me there’s a girl out there, with love in her eyes and flowers in her hair” (Going to California). Mas nunca imaginei que eu um dia iria pra lá atrás de cerveja, com a flôr, no caso, sendo a de lúpulo!!!

Valeu, Pete!

Indiana Brew-B-Q 2007

Mais algumas semanas viajando a trabalho. Estive visitando o Institute for Scientific Computing and Applied Math (ISC) e o Department of Mathematics da Indiana University, Bloomington, EUA. Agradeço ao diretor do ISC, Roger Temam, pelo convite e custeio da viagem, que rendeu tantas boas cervejas, he, he, he.

Dessa vez a visita foi mais curta e o trabalho foi mais intenso que o de costume. Mas ainda assim consegui tirar um sábado de folga, dia 9 de junho, para participar do Brew-B-Q 2007 – The First Annual Gathering of Indiana Homebrew Clubs, o primeiro encontro de clubes de cervejeiros caseiros de Indiana, patrocinado pelo FBI – Foam Blowers of Indiana e ocorrido na loja Great Fermentations, em Indianápolis.

Fui para o encontro de carona com um amigo da universidade, que tem casa em Indianápolis. Entrei meio de gaiato, pois não faço parte de nenhum clube de Indiana, mas fui muito bem recebido. Na foto seguinte, estou com algumas pessoas do St. Gambrinus, um clube de Bloomington, e do FBI. Todos muito simpáticos.
Eu no Brew-B-Q 2007

O evento marcou, também, o primeiro dia para a entrega das garrafas de cerveja para o concurso Brewers’ Cup Competition 2007 Indiana State Fair. Entrei com três cervejas, a Inveja de Baco, uma English Barley Wine, a La Trapaça, uma Dubbel, e O Espresso da Meia-Noite, uma Sweet Stout. O legal é que nesse dia havia dois jurados do BJCP e fui avisado que eles poderiam dar dicas sobre em que categoria seria mais apropriado classificar cada cerveja. Não tinha dúvidas em relação à barley wine e à dubbel, mas abri uma garrafa para eles só para ver o que eles achavam e mostrar que aqui também se faz boa cerveja! Mas tinha sérias dúvidas sobre a stout. Fiz essa cerveja pensando na verdade em uma porter, achando que o malte que tinha era Carafa I da Weyermann, tipo chocolate, mas depois descobri que era Carafa III, que está mais para Black Patent Malt. O torrado ficou muito forte e fiquei na dúvida se deveria classificá-la como Robust Porter ou Foreign Stout. Para minha surpresa, ambos os jurados disseram que estava um pouco mais para Sweet Stout. E, de fato, provando novamente a cerveja, faz sentido a escolha deles (não é à toa que são jurados).

Um dos jurados era a Anita Johnston, co-chair(wo)man da competição e dona da loja Great Fermentations. No início do ano escrevi para ela sobre a possibilidade de participar da competição e, para a minha grata surpresa, ela respondeu em português! Chegou a morar em Goiânia, entre 1978 e 1979, como parte de um programa de intercâmbio. Muito gente boa. Aqui estamos nós em sua loja de dar água na boca:
Eu e Anita
O outro jurado, Paul, do FBI, também muito gente fina:Paul

Levei um total de 12 garrafinhas. Seis para o concurso e as outras pra servir pro pessoal. Foram muito bem recebidas, especialmente a Dubbel e a Barley Wine! Note que eles pedem apenas duas garrafinhas de cada cerveja. A Anita me explicou que eles separam três jurados para cada conjunto de aproximadamente doze cervejas, e abrem uma garrafa para pontuar e decidir o vencedor de cada estilo. A outra garrafa é aberta apenas para escolher o Best in Show, a melhor dentre os vencedores de cada estilo, mas no sentido de ser a melhor de acordo com o estilo, ou seja, por exemplo, a La Trapaça é mais fiel ao estilo dubbel do que O Espresso da Meia-Noite é fiel ao estilo Sweet Stout, ou algo assim.

O encontro contou com a presença ilustre de John Blichmann, de equipamentos famosos como Beer Gun, Fermenator, Therminator, etc. Para o evento, ele trouxe dois Beer Guns para serem sorteados, além do seu novo Fermenator, de 42 galões (148L), se não me engano, mas este apenas para exibição:
Fermenator de 42 galões
E eu aproveitei para tirar foto ao lado dele, com um Therminator:
Eu e John Blichmann
Mas este infelizmente não era meu. Além dos Beer Guns, vários prêmios foram sorteados, anunciados pelo Ron Smith, do FBI:
Ron
Eu ganhei uma caixa com seis garrafinhas de Sheet Metal Blonde, uma Witbier da Barley Island Brewing Company, de Noblesville, aqui mesmo em Indiana. Legal!



Foi um encontro com ótimas cervejas e ótimas pessoas. Provei pela primeira vez um cidra caseira, de um rapaz do clube CACA, de Columbus. Muito boa. Também conheci uma outra pessoa que morou no Brasil, em Viçosa, o Greg Christmas, do FBI, casado com Mary Ann:
Eu e Greg e Mary Christmas
O Greg foi o vencedor nas categorias “Belgian Dubbels and Tripels” e “Belgian Golden and Dark Strong Ales”, e foi chamado rei das belgas, mas espero que esse ano ele perca pra mim, he, he, he. Sonho meu. Muito gente fina ele.



Brian e Starla, também do FBI, também foram muito simpáticos e estão agora fazendo planos para visitar o Brasil. Serão muito bem vindos.
Brian e Starla

Voltei de carona com o pessoal do Bloomington Hop Jockeys (Kris, Kevin e Katrhyn), o outro dos dois clubes de cervejeiros caseiros de Bloomington.
Kevin, Kathryn e Kris

O chato é que me atrasei e perdi o casamento de uma amiga romena, Cris, com o Daniel, mas na semana seguinte, consegui sair com eles e o Du para tomar umas Hoegaarden na pressão:
Cris, Daniel eu e Du

A viagem também me rendeu vários equipamentos e insumos novos. Foram quase 20Kg de malte (várias sacas de 5 pounds e outras de 1 pound), 15Kg de duas cold plates com circuito duplo para montar uma chopeira a gelo com quatro torneiras, 5Kg de um moinho Crankandstein 3D de três rolos, várias torneiras e outras coisas menores. Acabei estourando o limite de peso e tive que fazer milagres para voltar.



E como já falei de outras vezes, é preciso muita cerveja para fazer matemática. Então quase toda noite tentava experimentar alguma coisa nova. Aqui vão algumas que anotei:

  • Vanilla Porter, da Breckenridge Brewery, Colorado, EUA. Garrafa de 12 fl. oz. (355ml), 4,7% alc./vol., 16 IBU. Feita com “real vanilla beans”! Aroma e sabor bem presentes e agradáveis de baunilha. Bem interessante. É uma porter com um sabor relativamente discreto de tostado, chocolate e café. Contra a luz, é meio avermelhada. Mas talvez a baunilha esteja um pouco demais e um pouco enjoativa. O lúpulo não é tão agradável. E, de fato, tomando o segundo copo, tá difícil de continuar. Enjoada mesmo. A Glück Hairy Porter do pessoal da Glück Bier, de BH, Daniel Chaves, Diego Pinheiro e José Augusto Silveira, é muito mais equilibrada e melhor!
  • Hoegaarden na pressão (em um novo bar, Flatbread, que abriu em Bloomington), com sabor discreto de laranja e bem discreto de coentro, carbonatação alta, acidez pronunciada, bastante refrescante. Muito melhor do que na garrafa. Uma delícia.
  • Midas Touch, da Dogfish Head Craft Brewery, Delaware, EUA. Garrafa 12 fl. oz. (355ml), 9% alc./vol., 20 IBU, “with barley, honey, white muscat grapes & saffron”! De fato, aromas de mel e uva perceptíveis e açafrão bem discreto. Muito interessante. Boa; ligeiramente doce, mas não a ponto de enjoar; pouco encorpada, e sem muito calor do álcool, até enganando de início, parecendo não ter um teor alcoólico tão alto. Lembra um Sauternes (eu disse “lembra”, bem de longe, com todo o respeito).
  • He’Brew Bittersweet Lenny’s R.I.P.A, da Shmaltz Brewing Company, da California, EUA. Garrafa 1 pint/16 fl.oz. (473ml), 10% alc./vol.. Uma IPA “dupla” com centeio. Maravilhosa. Cor cobre escuro, aroma acentuado de lúpulo, sabor de malte caramelo e centeio, lúpulo cítrico, bastante cremosa, doce e amarga ao mesmo tempo, retrogosto bem amargo, complexa. Uma delícia. Mais uma IPA de centeio que eu adoro. Da página deles, algumas informações sobre a receita: maltes “2-row, Rye Ale Malt, Torrified Rye, Crystal Rye 75, Crystal Malt 65, Wheat, Kiln Amber, Caramel 70”; lúpulos “Warrior, Cascade, Simcoe, Crystal, Chinook, Amarillo, Centennial e Dry Hopped with Amarillo and Crystal”. Na página deles http://www.shmaltz.com/lennys.html dá até para pegar os detalhes da receita. Mas apesar da gravidade alta e da variedade de maltes, ela não tem o corpo e a complexidade de uma Barley Wine. É, de fato, uma IPA.
  • Arrogant Bastard Ale, da Stone Brewing Company, California, EUA. Garrafa 1 pint/16 fl. oz. (473ml), 7,2% alc./vol.. Bem lupulada, amarga, lúpulo mais para herbáceo do que cítrico, digamos assim. Malte caramelo. Espuma espessa, boa carbonatação, enchendo a boca. Muito gostosa.
  • Hacker-Pschorr (Hefe) Weisse, na pressão, no bar Irish Lion, em Bloomington. Graças a essa cerveja que eu adorava weiss. Depois, no Brasil, restrito a Paulaners, Franziskaners e Erdingers da vida, esqueci dela e comecei a achar weiss sem graça. Mas hoje, depois de provar de novo essa cerveja, eu vi como uma weiss pode ser maravilhosa. Maiores informações para quem souber alemão na página da Hacker-Pschorr Hefe Weiss, o que não é o meu caso.
  • Sheet Metal Blonde, da Barley Island Brewing Company, de Noblesville, Indiana, EUA. Garrafa de 12 fl. oz. (355ml). Essa é da caixa de 6 cervejas que ganhei no sorteio no Brew-B-Q 2007. Não é uma Witbier excelente, mas também não é ruim como aquela Blue Moon da Coors. Tem um coentro perceptível e é meio rala, com alguns sabores meio estranhos , mas nada muito crítico. Valeu a experiência, para apagar a péssima imagem de belgian wit americana que tinha com a Blue Moon.
  • Cane & Ebel, da Two Brothers Brewing Company, de Illinois, EUA. Garrafa 1 pint/16 fl. oz. (473ml), 7,0% alc./vol.. Uma cerveja de centeio bem lupulada. Malte caramelo, “spicy” do centeio, e mais para amarga. Lúpulo mais herbáceo, mas também um pouco cítrico. Essa eu já conhecia e já tinha comentado antes. Uma delícia.

Congresso na Inglaterra – “o dever me chama”

É um trabalho árduo, este, que me leva a viagens desgastantes… E após três dias intensos de congresso (Workshop on Partial differential equations and fluid mechanics, para os curiosos), paro para relaxar em um pub em Kenilworth, um pouco a noroeste de Londres. Tomo uma “Everards Original”, uma pale ale feita com malte Maris Otter e lúpulos Fuggles, Challenger e Goldings, com 5,2% abv:
Pub

Neste mesmo pub, fui em noites anteriores e tomei, entre outras, uma “Tiger” também da Everards, que é uma best bitter com 4,2% abv, malte Maris Otter e lúpulos Fuggles e Goldings, deliciosamente mais lupulada que a anterior. No pub em frente a este e bem ao lado do meu hotel, tomei também uma bitter maravilhosa da Hook Norton, bem balanceada e com destaque para o sabor do fermento, que me lembrou a ESB “Monty Python” que fiz recentemente com fermento “British Ale”.

Nos primeiros dias, durante o congresso, fiquei por ali, indo a pubs todas as noites (domingo a quarta!) e me deliciando com as famosas real ales, que só conhecia de livros e internet. É emocionante ver uma real ale sendo servida. Na foto seguinte a “Pedigree”, da cervejaria Marston, a única tradicional restante em Burton-on-Trent, servida pela nossa guia, após a tour pela cervejaria:
Real Ale
Real Ale

Notem a quantidade de espuma formada na hora de servir. É lindo isso. E essa espuma é muito cremosa e enche a boca de maneira fantástica. Ela se dissipa logo, deixando uma cerveja cristalina no copo e com pouquíssimo gás dissolvido. Não conseguia imaginar que elas seriam tão deliciosas com tão pouco gás. E várias ainda têm um teor alcoólico bem baixo, como a “Chiswick” da Fullers, com apenas 3,5%, com um aroma e um sabor deliciosamente lupulados via “dry hopping”, com Goldings, e que aparece na próxima foto:
Chiswick

A “Discovery”, também da Fuller’s, à direita na foto abaixo, também tem um teor de álcool baixo, acho que de 3,7%, e é uma cerveja pouco encorpada e discreta, com lúpulo Saaz, feita, segundo o guia, para atrair novos clientes para o mercado de ales, que estão acostumados com a leveza das lagers.
Pub

Reparem que eu escrevi lúpulo Saaz! O guia da tour pela Fuller’s disse que eles agora estão usando lúpulos de vários lugares, alguns até estranhos, mas que infelizmente não lembro. E de fato, vi, durante a tour, caixas e mais caixas com lúpulos como Styrian Goldings e Aurora (Slovênia), Saaz (República Tcheca) e Liberty (EUA), dentre os ingleses Fuggles, Goldings e Challenger.

Bom, mas estou saindo da linha de tempo. Depois do término do congresso na quarta-feira, passei o dia de quinta ainda trabalhando com o professor que me convidou para o congresso, mas no final da tarde consegui “escapar” e ir de Coventry, onde fica a Universidade de Warwick, até Burton-on-Trent, a duas horas e pouco de trem, passando por Birmingham, onde tivemos que trocar de trem. A cidade de Burton-on-Trent não pareceu tão charmosa quanto esperava, mas na saída da estação de trem já vimos uns tanques gigantescos da Coors, que se instalou lá há pouco tempo:
Coors
Não entendi o motivo, pois a água rica em minerais não é apropriada para a Coors. A guia da excursão à Marston, que nada tem a ver com a Coors, disse que eles têm que tratar a água para diminuir a sua dureza. Vai entender.

Foi uma boa caminhada até a Marston, seguida de um susto quando o guarda da cervejaria confundiu o dia da semana e disse que não teria tour naquele dia; que todos saíram para aproveitar o feriadão. Bom, desfeito o mal entendido, fui para o bar da cervejaria, aguardar o início da tour. Um amigo da Slovênia, Igor, que foi até lá comigo, resolveu não fazer a tour e ficou me esperando no bar, trabalhando. Vai entender esses matemáticos…
Igor

Durante a tour, vimos equipamentos antigos e novos, como os “mash-tuns”, “kettles” e o imenso resfriador de placas que aparecem nas fotos abaixo.
Mash tun antigo
Mash tun antigo
Mash tun
Kettle
Kettle antigo

Kettle

Trocadores de calor

A visão de cima dos “kettles” também é muito bonita:
Kettle

Mas a visão mais bonita é a do “Burton Union System”, um sistema de fermentação onde a cerveja fermenta em uma série de barris interconectados. O mosto é inoculado primeiro em tanques gigantescos, onde fica por 24h, depois é transferido para uma calha inclinada, com conexão para um dos barris, que está conectado em série aos outros barris. Em cada barril há um tubo de blow-off que leva a espuma da fermentação de volta para a calha. As calhas são abertas e aquela espuma toda fica visível, impregnando o ambiente com um cheiro mágico de fermentação. O fermento é próprio deles e tem se mantido continuamente em fermentação nesse sistema de barris, há cento e tantos anos seguidos. Nunca houve contaminação, mas se houver, há culturas separadas do fermento só para garantir. Como diria o Cafú, só estando lá para ver o que eu vi! Mas aqui vão algumas fotos para dar um idéia:
Barris do Burton Union System
Barris
Fermentação
Fermentação
Fermentação
Fermentação
Burton Union System de fermentação
Burton Union System

A água de Burton-on-Trent, pelo menos de certos poços artesianos de lá, é bastante especial, muito dura, cheia de sulfatos e outros sais. É particularmente boa para pale ales secas, mas não tanto para stouts e lagers em geral. Mas mesmo assim, a Marston não usa totalmente essa água; eles fazem uma mistura de 75% dessa água com 25% de água da bica, com menos sais. Eles usam malte Maris Otter, também um malte especial, supostamente o único cuja malteação se dá manualmente, em certo ponto. Os lúpulos são Fuggles e Goldings. Há duas cervejas deles feitas nesse sistema, uma delas é a “Pedigree”, com 4,5% abv, e a outra é a “Burton Bitter”, com 3,8% abv. Ambas deliciosas, com um gosto de fermento bem característico. Levas das cervejas são feitas pelo menos duas vezes por semana, mas eles também fazem a famosa Bass (que não é uma marca deles, mas eles fabricam para a Bass, pelo que eu entendi), mas que não passa pelo sistema “Burton Union”. Ela é feito pelo sistema “normal” e aqui está uma foto de uma fermentação de Bass transbordando:
Fermentação da Bass

E em outro tanque, uma folha de anotações (clicar para ampliar e ler detalhes):
Folha fermentação
Na Marston há, também, uma IPA feita com lúpulo americano Cascade! Pelo jeito a globalização está em todas as áreas.

À noite, voltamos para um novo hotel, em Lemington Spa, nossa nova morada por mais dois dias, mais perto da casa do nosso anfitrião. No dia seguinte, fui sozinho a Londres, a uma hora e pouco de trem de Lemingon Spa, para visitar a Fuller’s.

Entrada da Fullers

Essa tour foi mais organizada, com o guia dando mais informações e detalhes. Entramos em uma sala cheia de tipos diferentes de lúpulos, e aqui está o nosso guia falando deles:
Guia da Fullers
Guia da Fullers

Não vimos os maltes direito, mas vimos sacos e mais sacos de gypsum (sulfato de cálcio) para “burtonizar” a água para as bitters deles.

Também vimos equipamentos antigos e novos:
Equipamento antigo
Kettles
Eu

Além de um laboratório:
Laboratório
Vimos também uma experiência com a Old Ale deles, envelhecendo em barris de carvalho de whisky por uns cinco meses:
Fullers Vintage Ale
Mais Fullers Vintage Ale
(Acho que normalmente elas não são envelhecidas em barris, por isso ele falou em experiência.)

Também vimos um vidro com isinglass, usado por eles para clarificar as cervejas:
Isinglass
O isinglass também é usado na Marston. Acho que é bem comum aqui. Eles colocam o isinglass nos barris pouco antes de enviá-los para os pubs. Nos pubs, o barril fica parado no lugar e, após dois dias de espera para o isinglass fazer efeito decantando o fermento e as partículas maiores, a cerveja começa a ser servida, extremamente límpida. A cerveja nesses barris não é filtrada e eles falam que a cerveja ainda está “viva”, pois ainda há fermento. Outro detalhe é que como essas real ales são tiradas com ar, ao invés de CO2, elas estragam em quatro ou cinco dias, por isso é necessária uma boa rotatividade no bar para manter as cervejas sempre frescas e boas.

Por fim, a tão esperada degustação na Fuller’s. Provamos muitas cervejas; todas as cinco real ales (“Discover”, “Chiswick”, “London Pride”, “HSB” e “ESB”), uma na pressão (“Honey Dew”) e três em garrafa (“1845” – refermentada na garrafa, “London Porter” – a minha porter favorita – e “Vintage Ale” – a old ale).
Degustação
Foi uma farra. Saí de lá, digamos assim, ligeiramente nas nuvens, correndo para pegar o trem de volta para Lemington Spa.

No dia seguinte, voltei para Londres para passar o final de semana na casa de um grande amigo, Cassio, que saiu da UFRJ para trabalhar em modelos matemáticos em um banco de financiamento alemão em Londres. Talvez seja um boa idéia, para ficar perto dessas maravilhas…

De resto, posso dizer que, contrariamente à fama culinária da Inglaterra, comi muito bem; carneiros, patos, além de comidas de outros países como Tailândia e outros. Mas também não podia deixar de comer o famoso fish and chips, que não é tão mal, se não for com freqüência. Também fui muito bem recebido; os ingleses são bastante simpáticos. Na Marston, por exemplo, após uma certa confusão na entrada em que paguei apenas metade do preço da tour, um inglês responsável pela visita de metade do grupo, pertencente a uma associação de engenheiros, disse para eu não me preocupar que a associação arcaria com a outra metade e eu que cuidasse de curtir e aproveitar as real ales!.

Mas durou pouco. A viagem só não foi completa porque consegui ir a só uma loja de cerveja caseira e a loja era muito ruim, com muito mais coisa para vinho e com o pouco que tinha de cerveja dedicado em grande parte a kits. Gastei uma fortuna de taxi para chegar lá e encontrar pouca coisa útil. Para não sair de mãos abanando, peguei o que tinha de Irish Moss, um outro fechador de tampinhas, 500g de malte chocolate da Young’s e dois kits de vinho para a Dani.

E devo confessar que o meu último pint na Inglaterra foi uma deliciosa “Leffe Blonde” na pressão! Fechei com chave de ouro, apesar de ser com a chave do vizinho…

Cheers!