Estripulias do Felipe

Já tem bastante tempo que não escrevo, mas por um bom motivo, que aliás está diretamente ligado ao artigo de hoje e que está deixando o meu tempo “livre” cada vez mais curto: escrevo sobre uma Belgian IPA, na verdade várias, feita por mim e pela Eduarda Dardeau, ao longo de 2012, em homenagem ao nascimento do nosso filho, Felipe, em setembro daquele ano.

Esse é um estilo bastante recente e ainda em desenvolvimento. Ainda não consta oficialmente no guia de estilos do BJCP e apareceu apenas recentemente no guia de estilos da Brewers Association na forma de Pale American-Belgo-Style Ale e Dark American-Belgo-Style Ale. E aparece em listas do Ratebeer e do Beer Advocate.

Grosseiramente falando, podemos dizer que uma Belgian IPA é uma união entre as características condimentadas e frutadas das leveduras belgas e as características de lupulagem de amargor e aroma das India Pale Ales, americanas ou inglesas. A classificação da Brewers Association tende mais para as versões de IPAs americanas, como o nome sugere. Já as listas do Ratebeer e do Beer Advocate são mais amplas.

A Urthel Hop-It, cerveja belga de 2005, “inspirada pela tradição americana, com variedades especiais de lúpulos aromáticos europeus”, é considerada uma das primeiras do estilo, combinando as características das leveduras belgas com uma lupulagem mais marcante.

A HOUBLON CHOUFFE Dobbelen IPA Tripel (Double IPA Tripel), produzida pela primeira vez em 2006, pela cervejaria La Chouffe, “com três tipos de lúpulos e um agradável frutado”, é outro exemplo mais antigo do estilo, também com variedades européias de lúpulos.

Outra Belgian IPA de origem belga que merece destaque e que chega aqui pelas nossas bandas é a Gouden Carolus Hopsinjoor, lançada em 2008, com cinco tipos de lúpulos utilizados durante a fervura mas aparentemente sem dry-hopping.

Todas as três parecem combinar uma tripel belga com uma India Pale Ale mais inglesa do que americana. Mais recentemente, versões com lúpulos mais cítricos foram lançadas, com destaque para a Duvel Tripel Hop, com três tipos de lúpulos, sendo que um dos lúpulos varia a cada ano. A primeira produção foi em 2007, depois em 2010 e segue anual desde então. No primeiro ano que eu e Duda tomamos essa cerveja, em 2011, no Delirium Café, os lúpulos foram Saaz, Styrian Goldings e Amarillo, sendo que o dry-hopping não foi de Amarillo, mas de Styrian Goldings, e achamos espetacular. Ficamos encantados e foi a nossa inspiração para fazermos a nossa versão de Belgian IPA. Em 2012 o Amarillo foi substituído por Citra, mas eu não lembro de ter tomado. Em 2013, foi com o Sorachi Ace, que eu não curti muito. Em 2014, temos o Mosaic e aguardo ansioso para experimentar!

Naturalmente, encontramos, mais recentemente, várias versões americanas de Belgian IPAs, como a Raging Bitch Belgian-Style IPA da Flying Dog, que já esteve por aqui, e a Le Freak, da Green Flash. As belgas mencionadas até agora tem como base cervejas do tipo Tripel, mas há outras cervejas classificadas como Belgian IPAs e que tem como base cervejas de outros estilos, como belgian wit, por exemplo, como a Chainbreaker White IPA, da Deschutes Brewery, entre outras.

Em termos de classificação, vislumbro até que o BJCP venha a incluir uma categoria Belgian IPA subdividida em estilos como White IPA, Double IPA, Tripel IPA, Farmhouse IPA, etc. Mas talvez ainda esteja cedo para isso. Como muitas pessoas teimam em não enxargar, não é o BJCP que dita as regras para as nossas cervejas, somos nós que indicamos ao BJCP as nossas tendências e sempre há espaço para desviarmos da tendência da maioria das pessoas. Só se sente preso quem quer.

E antes mesmo de haver regras e inspirado na Duvel Tripel Hop, resolvi fazer a minha interpretação de uma Belgian IPA, mais especificamente de uma Tripel IPA, naturalmente. Mas não queria tentar clonar a Duvel Tripel Hop, ela só serviu de inspiração. Queria uma cerveja menos alcoólica e com outros perfis de leveduras e de lúpulos.

Não acho que seja simples casar o frutado/condimentado das leveduras belgas com o amargor e o aroma de qualquer lúpulo. O WLP500 Trappist Ale da White Labs (“Chimay”), por exemplo, tem um tipo de frutado bastante acentuado e mais complicado de combinar com lúpulo. O WLP570 Belgian Golden Ale (a própria “Duvel”) às vezes eu acho um pouco fenólico demais e também pode ser complicado de combinar com lúpulo. Acho mais apropriado trabalhar com o WLP530 Abbey Ale (“Westmalle”) ou com o WLP550 Belgian Ale (“Achouffe”).

Em relação aos lúpulos, prefiro não exagerar no amargor, mas não vejo problema em caprichar no aroma, desde que combine com o frutado da levedura. Nesse sentido, acho que um frutado mais fino tipo um Amarillo e um Centennial ou um floral tipo o Styrian Goldings combinam bastante, enquanto que aromas mais picantes e brutos podem não combinar tanto. Mas tudo é questão de experimentar, posso estar enganado.

Mas assim como o Felipe, a cerveja foi feita em conjunto com a Duda. Felizmente a “gestação” foi mais curta! Optamos por uma base de fermentáveis bem simples, com apenas malte pílsen, um pouco de munich e açúcar, para um extrato inicial de 16,5P (1.068 g.e.). Vendo o que tinha disponível em casa, achamos legal usar o WLP530 Abbey Ale em combinação com os lúpulos Challenger, East Kent Goldings, Amarillo e Centennial, para sabor e aroma. A atenuação ficou em 88% e a cerveja, após o primming, ficou com um pouco mais de 8% de teor alcoólico em volume. O IBU calculado ficou na faixa de 50-60, mas certamente boa parte foi embora na fermentação, sem contar a incerteza do cálculo, de maneira que o IBU real deve ter ficado mais perto dos 35-40. Na verdade foram várias levas, mas todas mais ou menos parecidas, exceto que em duas usamos levedura de Saison e a cerveja atenuou ainda mais e ficou também bem gostosa. A última, no entanto, foi a única engarrafada, e levou dry-hopping apenas de Centennial, a uma razão de 1,5g/L, logo ao final da fermentação, depois de trocarmos a cerveja de galão para retirar a “lama”, mas ainda mantendo a temperatura “quente” de fermentação por um dia, para em seguida reduzir para 12C e, no dia seguinte para 8C, para então trocarmos novamente de galão para retirar o depósito de lúpulos e deixar a cerveja maturando por mais uma ou duas semanas.

E como não poderia deixar de ser, fizemos um rótulo comemorativo. Todos os que foram nos visitar na maternidade ganharam uma garrafinha de “Estripulias do Felipe”! Observe que, por coincidência do nome, extraímos as letras que formam as palavras “Tripel” “IPA” do próprio nome “Estripulias do Felipe”. De certa forma, acho que a sonoridade da palavra “Tripel” me levou à palavra “Estripulias” e acabou gerando essa coincidência. Observem o destaque no rótulo, em amarelo e verde!

Rótulo da Estripulias do Felipe

Rótulo da Estripulias do Felipe

5 ideias sobre “Estripulias do Felipe

    • Olá, clayton,

      A base é uma tripel. Pode usar de 10 a 20% de açúcar e o resto só pílsen ou usar um pouco de Munich. Essa que fizemos foi com uns 6% de Munich e uns 10% de açúcar.

      Um abraço,
      Ricardo

  1. Bacana, Ricardo. Certa vez um amigo me ofereceu uma cerveja pra provar às cegas, dizendo ser uma Tripel. Era a HOUBLON CHOUFFE Dobbelen IPA Tripel. Argumentei dizendo que estava com o amargor muito pronunciando para ser uma Tripel, no que a patroa – que por sinal não bebe – logo emendou: É uma Tripelipa! rs…Ficou e talvez eu use o termo para nomear a minha próxima cria do estilo! rs
    Abraços!
    Thiago Dertinati

  2. Muito legal o texto Ricardo. A combinação das características das leveduras com a dos lúpulos realmente é um desafio e tanto neste estilo. O rótulo ficou muito legal. Esperamos que o pequeno Felipe lhe permita escrever mais por aqui!

    Abração e parabéns!
    Rafael Bertges

  3. Muito legal ver um novo post aqui no Blog, Ricardo. Estava sentindo falta.

    Ótimo post, como sempre. Continue compartilhando seu conhecimento conosco.

    Parabéns!

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