Peri e Araci: Saison com refresco azedo de casca de abacaxi

A cerveja que descrevo hoje resgata, de certa forma, heranças de minha avó e de meu avô paternos, Peri e Araci, e foi feita em homenagem a eles.

Quando eu era criança, adorava um suco azedo da casca do abacaxi que a minha avó fazia. Na verdade era um refresco, pois era feito com a casca do abacaxi e uma certa quantidade de água. Tinha um gostinho um tanto engraçado para um refresco, com evidente gosto de abacaxi, mas um pouco ácido e com um pouquinho de gás. Talvez tivesse um pouco de álcool por causa da fermentação também, mas isso nunca tinha passado pela minha cabeça e não sei se passava pela dos meus pais e avós… Mas a quantidade de álcool devia ser muito pequena.

Esse refresco azedo de abacaxi, acrescentado de açúcar mascavo e de especiarias como cravo e gengibre, é conhecido em diversas regiões do país como aluá de abacaxi, como vim a descobrir recentemente.

Por sua vez, soube que meu avô costumava fazer cerveja em casa, entre outras bebidas alcoólicas, muitos anos atrás. Infelizmente comecei a produzir cerveja após meu avô ter falecido e não cheguei a ouvir, ou guardar, essas aventuras diretamente dele.

Meus avós paternos são do Rio Grande do Sul, e trazem essas heranças de lá. Meu avô é de Alegrete, RS, e conheceu a minha avó em Arroio dos Ratos, RS, quando ele foi trabalhar como contador, devido a suas habilidades com números, nas minas de carvão de lá. Em seguida, foram para Porto Alegre, no bairro Partenon, com o meu pai (e meus dois tios) ainda criança, onde meu avô chegou a fabricar cerveja, vinho, marmelada, entre outras coisas, para ganhar um trocado extra, colecionando histórias de garrafas de cerveja estourando no porão. Na época da segunda-guerra mundial, vieram todos para o Rio de Janeiro. Meus avós ainda tiveram uma passagem por Betim, MG, em 1958 e 1959, enquanto meu pai ficou no Rio, cursando a faculdade de Geografia, na UFRJ (Universidade do Brasil, na época), onde conheceu a minha mãe. Um pouco depois, começou a minha história, já com os meus avós de volta ao Rio.

Logo após eu me sentir com mais domínio do processo de fabricação de cervejas e mais seguro para inventar receitas que pensei em usar esse refresco azedo de casca de abacaxi em alguma cerveja. Mas demorei a resolver qual estilo de cerveja usar como base. Isso começou a clarear quando passei a entender melhor o estilo Saison. Achei, então, que caberia perfeitamente nesse estilo.

A minha ideia era fazer uma cerveja refrescante, complexa mas delicada, com os aromas típicos da fermentação de uma Saison, um gosto perceptível do abacaxi e uma acidez discreta do refresco.

Acho que consegui chegar bem perto disso, exceto pelo fato dela ter ficado um pouco mais alcoólica do que acho que seria o ideal.

Fiz uma leva com apenas malte pílsen e 7% de açúcar em peso, para uma gravidade original de 1.052. A lupulagem foi de Summit e Styrian Goldings, em partes mais ou menos iguais, desde o início da fervura até o final, e ainda no dry-hopping, com amargor chegando a 45 ibus. Dividi a leva em duas partes de uns 18L cada, uma fermentando com WLP530 Abbey Ale Yeast e outra com WLP565 Belgian Saison I Yeast. A inoculação foi a 17C e ambas as fermentações foram para 20C nas primeiras 24h, depois deixei subindo 1C por dia, com a Abbey chegando a 24C e a Saison a 27C. As fermentações duraram em torno de 12 dias, com a Abbey chegando a 1.006 (88%) e a Saison a 1.002 (92%)!, com as densidades conferidas no densímetro e no refratômetro. Excelente! A versão com Abbey foi, naturalmente, mais frutada, enquanto que a de Saison foi mais condimentada, típico desse fermento.

Em seguida, fiz dry-hopping de partes iguais de Summit e Styrian Goldings, de aproximadamente 1g/L no total, ainda em temperatura de fermentação. Depois de uma semana, troquei as cervejas de galão e baixei a temperatura. As densidades continuavam as mesmas; as fermentações, aparentemente, tinham sido completas.

Partes das cervejas com Abbey e Saison foram para cornelius separadas. O resto foi misturado e uma parte foi para um barril de bálsamo e outra para receber o refresco azedo de casca de abacaxi.

Para o barril de bálsamo, foram 10 litros no total, sendo 60% de Abbey e 40% de Saison, e a cerveja está lá, curtindo, desde abril. (Já tinha guardado uma Saison em bálsamo ano passado, conforme descrito no artigo Saison de ma Maison, mas essa versão é mais recente).

Para a Saison com o refresco, foram 3,5L de Abbey (54%), 2L de Saison (31%) e 1L de refresco (15%). Mas falta contar como foi feito o refresco e os detalhes dessa mistura.

Fiz alguns testes com o refresco, até acertar. A ideia geral é pegar as cascas do abacaxi, colocá-las em uma tigela, colocar um pouco de açúcar, cobrir as cascas com água e deixar a mistura fermentando por um ou dois dias. A fermentação se dará de forma espontânea, por conta da flora que habita a casca do abacaxi. Mas é preciso tomar alguns cuidados.

Para evitar que o refresco fique acético, é importante diminuir ao máximo o contato com o ar, evitando aquelas pequenas moscas de frutas e reduzindo a presença de oxigênio, que favorece a proliferação de bactérias que produzem ácido acético. Isso pode ser feito cobrindo-se a casca banhada em água com um filme plástico, deixando o filme tocar as cascas e a água, esvaziando ao máximo as bolsas de ar. O papel alumínio é uma alternativa, mas ele não permite uma visualização direta do estado da fermentação e pode não vedar tão bem, deixando, às vezes, que a mistura estrague.

O tempo depende da temperatura ambiente. No verão do Rio de Janeiro, basta um dia. No frio, uns dois dias. Com o filme plástico, é possível ver a evolução e deduzir que a fermentação está de vento em popa pela espuminha gerada (e pelo filme plástico estufando), como na sequência de imagens abaixo.

Fermentação espontânea da casca do abacaxi: início.

Fermentação espontânea da casca do abacaxi: 13h depois.

Fermentação espontânea da casca do abacaxi: 20h depois.

Mas não é pra esperar uma possível fermentação completa, o importante é terminar antes que outros bichinhos indesejáveis passem a gostar da mistura e estraguem o refresco. No caso acima, parei com 20h.

Fiz testes com fermentação espontânea, em temperatura ambiente, aproveitando a flora da casca do abacaxi, e também com fermentação controlada, fervendo antes a casca de abacaxi, inoculando com lactobacillus e controlando a temperatura em uma geladeira. Ambos ficaram bons e muito parecidos, mas a espontânea em temperatura ambiente pareceu um pouquinho mais interessante e gostosa. Antes de usar o filme plástico, os testes não estavam dando certo e o refresco estava virando vinagre.

Na hora de adicionar o refresco à cerveja, aproveitei os testes que deram certo, obtendo 1L de refresco, sendo uns 70% da fermentação espontânea e uns 30% da fermentação controlada. Antes de colocar o refresco na cerveja, adicionei uns 400g de açúcar e fervi por uns 20min pra matar os lactobacillus. Em seguida, como disse acima, misturei 3,5L de cerveja fermentada com Abbey, 2L de cerveja fermentado com Saison e 1L do refresco de abacaxi com açúcar, adicionei mais um pouco de fermento Saison e deixei (re)fermentando por duas semanas, a 22C. Fiz alguns testes em um copo, antes, pra ver o efeito da proporção de refresco na acidez e na presença do abacaxi, até decidir por essas quantidades.

Depois da refermentação, diminuí a temperatura para 1C, mantive assim por umas duas semanas e envasei com priming de 7,5g/L de açúcar. Contando com o priming, essa mistura ficou com um teor alcoólico próximo de 7% em volume.

O resultado foi excepcional. Uma cerveja equilibrada, delicada, extremamente complexa e refrescante.

E merecia um rótulo bacana, que fiz usando, novamente, o Inkscape, um programa gratuito e que roda em diversas plataformas:

Rótulo da “Peri & Araci”

Dado o resultado, me motivei a enviar essa cerveja para competir no VII Concurso Nacional das ACervAs, esse ano organizado pela ACervA Paulista. Dessa vez, a organização criou uma categoria “Estilo livre com ingrediente brasileiro”, incentivando a criatividade dos cervejeiros brasileiros, e essa Saison com refresco azedo de casca de abacaxi cabia perfeitamente nisso.

Tinha consciência de que a cerveja estava muito boa, mas não sabia como uma cerveja azeda seria recebida pelos jurados brasileiros (e argentinos), dada a pouca disseminação de cervejas desse tipo por essas bandas. Também pesava o fato de que as competições têm ficado cada vez mais acirradas, com mais e melhores cervejeiros aparecendo toda hora. Mas eu não competia desde 2009 e me deu vontade de participar desse processo novamente. E o que mais me motivou, de fato, foi a possibilidade de disseminar mais o estilo Saison e incentivar outros cervejeiros a fazerem mais Saisons e cervejas azedas (as duas coisas são independentes, é claro; Saisons não são necessariamente azedas, e há cervejas azedas de diversos estilos).

Então foi com muita felicidade que recebi o anúncio de que a minha Saison azeda ficou em segundo lugar na sua categoria! Melhor ainda foi ouvir os elogios de diversos jurados.

Segundo lugar com a Peri & Araci

A única parte ruim é que foram muito poucas garrafas e a sede é grande! Acho que restaram umas duas ou três garrafas só. Mais uma cerveja que vou ter que fabricar de novo!

Espero que tenham gostado da história dessa cerveja.