Fornicale Bitter

Cervejas extremas ou com ingredientes exóticos estão na moda. É natural, pois grande parte da graça de se fazer algo está nos desafios e na busca por algo diferente. Isso vale principalmente para quem faz isso por hobby, mas também para os que tem algum compromisso com o mercado. Mas com frequência, em diversos eventos e lugares, isso aparece em excesso, com cada um querendo exibir a sua cria mais exótica, e invariavelmente sinto falta de uma cerveja simples, com baixo teor alcoólico, balanceada, fácil de beber e ainda assim deliciosa.

É nessa direção que tem aumentado cada vez mais a minha predileção por Bitters e Pale Ales em geral. E o ícone, pra mim, desse tipo de cerveja, e uma das minhas favoritas, é a Chiswick Bitter, da cervejaria inglesa Fullers. Gosto de brincar dizendo que essa também é uma cerveja extrema, pois está no extremo inferior do parâmetro teor alcoólico, com apenas 3,5% por volume! É uma Bitter com um sabor discreto de malte e muito aroma e sabor de lúpulo, que é o que a distingue e a torna especial. E, por ser bastante leve, seca e saborosa, é muito fácil de beber.

Tomei o chopp Chiswick em uma visita à Fullers, em uma viagem à Inglaterra em 2007, e saí fascinado com essa cerveja. Também tomei várias outras bitters com teor alcoólico em torno de 4% e 5%, com um pouco mais de presença de malte, além do lúpulo, e todas muito saborosas. E nos EUA, apesar de todo o frenesi sobre cervejas extremas, há várias pale ales com teor alcoólico em torno de 5% e muito saborosas.
Bar da Fullers

Em relação à Chiswick, ela foi uma das cervejas escolhidas no Big Brew Day 2008 da American Homebrewers Association e a sua receita foi publicada na página deles, com malte base Pale, algo próximo de 5% de malte caramelo, lúpulo Target de amargor, Northdown e Challenger de sabor e aroma, e East Kent Goldings em três etapas de dry-hopping (no final da fermentação, na maturação e no envase), dando uma OG de 1.040 e IBU de 33. Como tinha gostado muito dessa cerveja, botei pilha no Mauro Nogueira da Confraria do Marquês para fazermos uma leva coletiva dessa cerveja, pela ACervA Carioca, no dia daquele Brew Day de 2008. Fizemos a cerveja e ela foi um tremendo sucesso.

Desde então fiz algumas versões inspiradas na Chiswick e nas outras bitters, tentando caminhar para um receita definitiva (ou quase). Como princípio básico, a receita deve ser simples, com poucos maltes, em variedade e proporção, abusando apenas na lupulagem de aroma e sabor. Tenho buscado uma cerveja com os seguintes parâmetros:

  • Gravidade original entre 1.040 e 1.045
  • Amargor entre 30 e 34 IBUs
  • Teor alcoólico entre 4,0 e 4,4% por volume
  • Em torno de 95% de malte base, de preferência malte Pale, ou então Pílsen com possivelmente um pouco de Munich ou Melanoidina, e os 5% restantes de malte caramelo
  • Mostura em torno de 65-68C
  • Fermento WLP013 London Ale da White Labs ou outro parecido
  • Em torno de 2/3 de IBUs provenientes de lupulagem a 60 minutos e o restante distribuído em lupulagens de sabor e aroma em duas ou três adições entre 0 e 30min
  • Um ou mais dry-hoppings totalizando algo entre 1g/L e 2g/L, de preferência East Kent Goldings ou Styrian Goldings, para ficar numa bitter inglesa, mas podendo variar para algum outro lúpulo, dependendo do gosto no momento

Essa cerveja tem feito muito sucesso e, invariavelmente, é o primeiro barril a roncar. Batizei essa cerveja de Fornicale (contrapondo com a Sex-a-holic da Duda!) e desenhei um rótulo, só pra fazer uma graça. Aqui está o rótulo de uma das versões, na qual coloquei um pouquinho de malte escuro para dar uma cor mais avermelhada:
Rótulo Fornicale

Bom, é isso, só espero que esse artigo ajude a incentivar as pessoas a fabricarem mais bitters deliciosas!