Sobre o artigo do Brejas contra uma suposta obsessão brasileira pelo BJCP

Escrevo sobre o artigo do Brejas “A estranha obsessão brasileira pelo BJCP”.

Quem escreve é um time de peso, e de amigos. A eles, e aos seus leitores, me dirijo:

Olá, pessoal!

É claro que concordo, enviesadamente, digamos assim, com algumas coisas que escrevem, mas gostaria de discordar e ressaltar alguns aspectos, se me permitem, e com todo o respeito.

Antes queria deixar claro que não rezo cegamente pela cartilha do BJCP, mas não acho justo demonizá-lo, e queria ser um pouco o advogado do diabo nesse caso.

1) Quem disse que o BJCP é o zênite, a última palavra no assunto? Ou vocês acham que o Brewers Association é o zênite? Ou o curso da Doemens? Ou o Ciccerone? Acho que essa não é a questão. Os dois guias são bons e os dois podem ser usados em diversos tipos de concurso, com jurados certificados em qualquer um deles julgando em um mesmo concurso. E podem existir cursos de diversos tipos, sem nicho de mercado de nenhum deles, com focos diversos.

2) O BJCP não é tão “amarrado” quanto o pintam. Há a categoria 20. Fruit Beer e a 17E. Fruit Lambic, que aceitariam perfeitamente uma jaboticaba, por exemplo. Se jurados estrangeiros não conhecem jaboticaba e teriam dificuldade de avaliar a Vivre, isso é outra questão, que não é culpa do BJCP, mas da falta de experiência do jurado nesse caso, que, como vocês mesmo afirmam, não é uma máquina para saber tudo, seja ele certificado BJCP ou Doemens ou etc. Aliás, assino o fórum da American Homebrewers Association e um tópico recente, que menciono apenas por curiosidade, foi sobre jaboticaba. Tem cervejeiro nos EUA que tem jaboticabeira plantada em casa e tá fazendo cerveja caseira com jaboticaba.

3) E tem também a categoria 23. Specialty Beer, que serve para novidades que podem virar um estilo próprio. O BJCP é versátil e os jurados que o julgam também deveriam ser. Acho maravilhoso um concurso desse como em Minas, que se enquadraria nessa categoria 23, e aqui mesmo no Rio já tivemos, bem antes, concursos “livres”, com cerveja até de pimenta malagueta, só pra mencionar uma. Infelizmente, em outros concursos da ACervA fora do Rio, essa ideia não foi levada adiante (nem no concurso em Minas), apesar de ter o apoio de vários cervejeiros caseiros.

4) Gosto muito do guia de estilos do Brewers Association, e já comentei no meu blog que, por exemplo, o estilo India Black Ale já existe nele e ainda não existe no BJCP, entre outros. Mas vale ressaltar, também, que algumas India Black Ales já vinham sendo feitas há anos mas ela só entrou no guia quando virou “moda” e várias microcervejarias começaram a fabricar a sua versão de IBA. Nessa mesma época, o BJCP se pronunciou dizendo que assim que isso virar moda nos concurso de cervejeiros caseiros ele poderia virar um estilo próprio, mas por enquanto compete em 23. Specialty Beer.

5) Aliás, vale ressaltar que o BJCP foi criado para julgar cervejas caseiras, enquanto que o Brewers Association é utilizado para cervejas comerciais. Cada um tem as suas peculiaridades e cada um segue as tendências e se adapta ao seu “filão”, digamos assim. Talvez as microcervejarias (americanas) sejam muito mais ágeis e, com toda a facilidade de equipamento, fabricação constante e mídia, conseguem fazer moda mais facilmente, enquanto que os caseiros ficam mais dispersos. Isso naturalmente poderia se refletir nos guias e no ritmo das suas atualizações. De qualquer maneira, tem que dar tempo ao tempo, para novos estilos se criarem.

6) Não sou, em princípio, a favor de restringir os concursos a jurados certificados, qualquer que seja o certificado, pelo menos no estágio atual em que estamos. Não estou sabendo de nenhum boato recente, mas se isso aconteceu em algum nível, é condenável. E isso não é culpa do guia BJCP em si. Qualquer um pode avaliar uma cerveja seguindo as diretrizes do BJCP, independende da chancela deles e de entrar ou não no calendário oficial deles. É claro que um jurado BJCP bem graduado tem grande respaldo e pode, em princípio, ter mais conhecimento sobre as peculiaridades e dificuldades de se fazer cerveja em casa, mas outros não credenciados mas reconhecidamente qualificados deveriam poder julgar também.

7) É claro que termos um guia nosso seria muito bom, mas isso é viável no momento? E a alternativa de trocar o BJCP pelo Brewers Association é tão melhor assim? Seria tão útil para cervejeiros caseiros? Não foi natural, como cervejeiros caseiros, começarmos a usar o BJCP? Porque demonizá-lo agora? Respondam a isso: em que sentido uma avaliação pelo guia do Brewers Association seria melhor? Tanto em relação a estilos já estabelecidos quanto aos não estabelecidos? Essa pergunta não envolve as peculiaridades do jurado, mas em relação aos parâmetros. E a atualização de quatro em quatro anos não é tão dramática assim.

8) Mais uma vez, a “culpa” não é do BJCP, mas do uso que as pessoas fazem dele.

9) Também fico com o pé atrás em relação a essa história dos cursos preparatórios, mas isso não é muito diferente de outros diplomas. Enquanto o preço for justo e o ensinamento for bom e honesto, está valendo. Há muito a se aprender ao se estudar para um tal certificado.

10) O que me parece é que tem algum ruído por trás desse artigo e que levou a esse quase “manifesto”. Mas para quem está por fora da fofoca, o foco me parece errado.

Grande abraço a todos!
Ricardo