Lótus, a primeira India Black Ale do Brasil?

Feche os olhos. Erga o copo. Sinta o aroma… lúpulo, muito lúpulo! Ah, que bela American IPA. Beba um gole… hmm, mais lúpulo e… um torrado gostoso… como assim? Não é uma IPA? Não!? Abra os olhos. Bem escura! Seria uma stout? Definitivamente não é uma lupulagem de Oatmeal Stout. Muito menos de Dry Stout. O mais próximo seria uma American Stout, mas a presença do lúpulo é muito mais forte.

Aparentemente esta é uma nova febre nos EUA, no que parece ser um novo estilo sendo criado (veja artigo Is Black IPA an emerging style?). Esse estilo tem sido chamado de Dark IPA, Black IPA ou IBA, de India Black Ale. Acho IBA mais apropriado, apesar de “iba” soar um pouco estranho. Se vai realmente virar um novo estilo na próxima versão do BJCP, só esperando para ver. Além disso, parece que há várias versões dessa idéia, umas em que o malte torrado só serve para escurecer a cerveja, o que me parece sem graça, e outras em que o malte torrado é mais evidente no sabor, o que seria uma mudança mais significativa e digna de um denominação própria de estilo. E definitivamente não é uma American Stout, pela lupulagem bem mais presente.

A primeira vez que soube dessa IPA foi no ano passado, no bar-cervejaria 21st Amendment, em San Francisco, que descrevi no artigo sobre o Festival de Cerveja Envelhecida em Madeira. Não tive dúvidas em pedir essa cerveja logo de cara, que eles batizaram de Back in Black. E repeti, de tão gostosa que achei. A sensação foi a descrita acima. Fechando os olhos, lembra inicialmente uma IPA, mas depois vem o torrado do malte, combinando perfeitamente. E junto com isso aquele sensação de “como é que ninguém tinha pensado nisso e esses caras ainda continuam nos surpreendendo com coisas assim?!?!”

Gostei tanto que trouxe, incentivado pelo Pete Slosberg, um growler dela de volta pra cá, tirado diretamente da chopeira. Conservei na geladeira o máximo possível e a cerveja resistiu por quase um mês sem problema algum. Foi degustada na ceia de final de ano da ACervA Carioca, ou melhor, na van que levou alguns sortudos para lá.

Van da Ceia de Natal da Acerva   Dez2008   14

Desde então nutri a idéia de tentar fazer a minha versão de India Black Ale. Consegui finalmente fazer a leva, no final de agosto.

Não achei nenhuma receita de IBA na internet e tive que me inspirar apenas na impressão da Back in Black que restava na minha memória. Usei em torno de 4% de cevada torrada e 2% de malte chocolate. E apenas 2% de malte caramelo, para uma cerveja mais seca. Tive como objetivo, mais ou menos, os parâmetros de uma American Stout ou de uma American IPA modesta, exceto pela cor, é claro. E não queria muito corpo, então planejei colocar açúcar, mas a eficiência foi tão absurdamente boa (em torno de 100%!), que acabei sem colocar esse adjunto. A gravidade original ficou em 1.060. A lupulagem foi mais de aroma e sabor, com o amargor sendo relativamente modesto para uma IPA, em torno de 46 IBUs, mas ainda dentro dos parâmetros. Usei apenas Cascade e Centennial na fervura. Também fiz dry-hopping, mas aí achei que o que tinha me restado de Cascade e Centennial era pouco e acabei colocando Challenger também, em cima da hora. Acho que o efeito disso no sabor e no aroma de lúpulo saiu um pouco do que eu buscava, que era um aroma e sabor mais cítricos, mas tudo bem, ainda assim ficou muito boa. O fermento usado foi o London, pra variar (único fermento que usei esse ano!), e a atenuação ficou em 74%, dando uma FG de 1.016, e um teor alcoólico de 5,8%.

O resultado final foi bastante positivo. Aroma e, principalmente, sabor evidentes de dry-hopping. Um torrado discreto e também um pouco de chocolate e café no sabor, mesclando bem com o lúpulo. Ficou com um pouco mais de corpo do que eu queria e o aroma de lúpulo não ficou tão forte.

Para as próximas versões, acho que tenho que ter mais cuidado com a eficiência, para poder colocar açúcar e ter menos corpo. Também acho que devo caprichar mais na lupulagem de aroma no final da fervura e diminuir o dry-hopping. E usar mais Cascade ou outra variedade de lúpulo mais apropriada para dry-hopping, evitando o Challenger. De qualquer maneira, foi uma deliciosa experiência.

A cerveja foi mais do que aprovada e elogiada em uma prévia para alguns membros da ACervA Carioca. E para os que forem ao Festival de Premiação do IV Concurso Nacional de Cervejas Artesanais, fiquem atentos, que servirei 18L dessa cerveja, batizada de Lótus. Um brinde!
Lotus