Rainha Vermelha

Estou bastante atrasado com os artigos. Já deixei de falar de algumas levas passadas e ainda tenho planos de escrever sobre os comentários dos jurados relativos às minhas cervejas nos concursos, mas hoje vou escrever sobre uma Irish Red Ale.

Este é o meu primeiro artigo depois do concurso e encontro da ACervA. Levei para lá cinco tipos de cerveja: uma dry stout, uma foreign extra stout, a peat-smoked porter (defumada em turfa), uma tripel e essa irish red ale. Pena que eu não me organizei o suficiente para identificar direito todas as cervejas. Acho que muitos beberam sem saber o que eram. A defumada, em especial, era a que eu mais esperava ter um retorno, pois ela era particularmente diferente.

A irish red ale foi a última que fiz para o encontro. As outras tinham, digamos assim, uma personalidade um pouco forte, e queria completar com uma cerveja mais acessível, que agradasse a um número maior de pessoas e também servisse para contrapor as mais agressivas.

Segundo a classificação de estilos do BJCP 2004, a Irish Red Ale é uma cerveja ale fácil de se beber, puxada para o malte, com uma certa doçura inicial e um tostado seco no final. Uma característica comum é um certo diacetil contribuindo para uma boa cremosidade na cerveja. Acredito ter alcançado essas qualidades todas com a escolha dos maltes, quantidade de lúpulo e um fermento apropriado. A única coisa que não acertei direito foi a cor. Ficou um pouco escura e puxada mais para abóbora; poderia ter ficado mais vermelha. Aqui vai uma foto dela:
Rainha Vermelha

A composição de maltes foi a seguinte:

  • 4,5 kg Pilsen (Agromalte) (75%)
  • 720 g Melanoidin Malt (Weyermann) (12%)
  • 480 g Carared® (Weyermann) (8%)
  • 240 g Special Roast Malt (Briess) (4%)
  • 60 g Carafa® TYPE III (Weyermann) (1%)

Acho que malte chocolate seria mais apropriado para dar uma cor mais avermelhada, e talvez uma quantidade menor dos maltes especiais; fica para a próxima experiência.

Estava em dúvida quanto ao tratamento da água. Por ser puxada para o malte, poderia almejar um tratamento típico de mild ale, com mais cloreto do que sulfato, mas por ser pale ale e pela característica de terminar com um tostado seco, poderia puxar mais para sulfato do que cloreto. Bom, escolhi a última opção e acrescentei 3g de gipsita e 1g de cloreto de cálcio anidro, em cada 20L de água mineral mole, o que acrescenta 53ppm de cálcio, 84ppm de sulfato e 32ppm de cloreto, com uma razão sulfato para cloreto de quase 3:1.

A lupulagem ficou assim:

  • 40 g East Kent Goldings (4.6%) por 60 min (16.6 IBU)
  • 40 g East Kent Goldings (4.6%) por 40 min (14.6 IBU)

Isso deu um amargor de 31 IBU para uma OG de 1.050, o que deu um ótimo equilíbrio à cerveja.

Usei o fermento “Irish Ale” da White Labs, que tem a seguinte descrição: “Esse é um fermento de uma das cervejarias mais antigas do mundo produtoras de Stout. Produz um pouco de diacetil, balanceado por um leve frutado e um pouco seca. Ótima para Irish ales, stouts, porters, browns, reds e uma pale ale muito interessante”. Já tinha usado esse fermento na minha Pale Ale que ficou em segundo lugar no primeiro concurso da ACervA Carioca, em 2006, e acho que caiu muito bem. E segundo a descrição da White Labs, achei que seria o fermento ideal para dar as características descritas pelo BJCP 2004 para esse estilo.

Os dados técnicos ficaram assim:

  • Rainha Vermelha (Cervejarte Irish Red Ale) – Setembro 2007
  • OG: 1.050
  • FG: 1.014
  • Atenuação: 72%
  • ABV: 5.0% (com o priming)
  • IBU: 31
  • EBC: 30
  • Mostura: 69-67C por 60min
  • Diluição do mosto: 2.4L/Kg (14.4L para 6Kg)
  • Lavagem: 90min
  • Volume inicial da fervura: 35L
  • Tempo de fervura: 75min
  • Volume no final da fervura: 28L
  • Eficiência: 83%
  • Fermentação primária: 10 dias, 19C
  • Fermentação secundária: 7 dias, 19C
  • Priming: 7g/L de açúcar refinado

Quem esteve no encontro da ACervA Carioca no dia 29 de setembro e provou de uma cerveja marrom-avermelhada saindo de uma chopeira azul, provou de fato essa irish red ale, que batizei de Rainha Vermelha! Espero que tenham gostado.

Eu, particularmente, fiquei muito feliz com essa cerveja! Não só porque achei boa, mas principalmente porque saiu perfeitamente dentro do estilo e exatamente com eu gostaria. Cremosa (na boca, do diacetil; não falo da espuma), leve e com um sabor gostoso de malte tostado.

O nome Rainha Vermelha vem do episódio “A Corrida da Rainha Vermelha” (“Red Queens’ race”), que aparece no conto “Alice no país do espelho” (“Through the Looking-Glass”), de Lewis Carrol (matemático(!) e escritor inglês com uma certa ascendência irlandesa). Nele, Alice corre sem sair do lugar e reclama que na terra dela geralmente se chega a algum lugar correndo daquele jeito. E a Rainha responde que lá, tem que correr ao máximo apenas para se manter no mesmo lugar. Isso tem sido usado para ilustrar, por exemplo, a teoria da evolução: para uma espécie se manter competitiva em seu meio-ambiente, é preciso evoluir junto com as outras espécies.
Alice e a Rainha Vermelha

É notório que, no nosso grupo de cervejeiros caseiros, todos melhoramos muito. E é preciso esforço para se manter em um bom nível. A idéia, então, com a Rainha Vermelha, é homenagear a nítida evolução que tivemos desde o primeiro concurso da ACervA Carioca e aproveitar para celebrar o sucesso desse primeiro ano da associação e o crescimento fenomenal que teve esse “movimento”!

A ACervA Carioca foi mais um catalisador nesse processo e como catalisador, também, não posso deixar de mencionar a comunidade “Cerveja Artesanal”, no Orkut, que foi responsável, inclusive, por agregar o grupo que formou o embrião da própria ACervA, e que congrega vários outros cervejeiros artesanais de outros estados. Nesse ano, já foram criadas a ACervA Paulista e a ACervA Minas, e outras associações estão sendo criadas. Outros grupos já existiam antes, como a BSG, no Rio Grande do Sul, entre outras. Discussões sobre uma associação nacional também estão sendo feitas. A evolução corre a passos largos e a comunidade de cervejeiros caseiros só tende a ganhar. Parabéns a todos!!!