Indiana Brew-B-Q 2007

Mais algumas semanas viajando a trabalho. Estive visitando o Institute for Scientific Computing and Applied Math (ISC) e o Department of Mathematics da Indiana University, Bloomington, EUA. Agradeço ao diretor do ISC, Roger Temam, pelo convite e custeio da viagem, que rendeu tantas boas cervejas, he, he, he.

Dessa vez a visita foi mais curta e o trabalho foi mais intenso que o de costume. Mas ainda assim consegui tirar um sábado de folga, dia 9 de junho, para participar do Brew-B-Q 2007 – The First Annual Gathering of Indiana Homebrew Clubs, o primeiro encontro de clubes de cervejeiros caseiros de Indiana, patrocinado pelo FBI – Foam Blowers of Indiana e ocorrido na loja Great Fermentations, em Indianápolis.

Fui para o encontro de carona com um amigo da universidade, que tem casa em Indianápolis. Entrei meio de gaiato, pois não faço parte de nenhum clube de Indiana, mas fui muito bem recebido. Na foto seguinte, estou com algumas pessoas do St. Gambrinus, um clube de Bloomington, e do FBI. Todos muito simpáticos.
Eu no Brew-B-Q 2007

O evento marcou, também, o primeiro dia para a entrega das garrafas de cerveja para o concurso Brewers’ Cup Competition 2007 Indiana State Fair. Entrei com três cervejas, a Inveja de Baco, uma English Barley Wine, a La Trapaça, uma Dubbel, e O Espresso da Meia-Noite, uma Sweet Stout. O legal é que nesse dia havia dois jurados do BJCP e fui avisado que eles poderiam dar dicas sobre em que categoria seria mais apropriado classificar cada cerveja. Não tinha dúvidas em relação à barley wine e à dubbel, mas abri uma garrafa para eles só para ver o que eles achavam e mostrar que aqui também se faz boa cerveja! Mas tinha sérias dúvidas sobre a stout. Fiz essa cerveja pensando na verdade em uma porter, achando que o malte que tinha era Carafa I da Weyermann, tipo chocolate, mas depois descobri que era Carafa III, que está mais para Black Patent Malt. O torrado ficou muito forte e fiquei na dúvida se deveria classificá-la como Robust Porter ou Foreign Stout. Para minha surpresa, ambos os jurados disseram que estava um pouco mais para Sweet Stout. E, de fato, provando novamente a cerveja, faz sentido a escolha deles (não é à toa que são jurados).

Um dos jurados era a Anita Johnston, co-chair(wo)man da competição e dona da loja Great Fermentations. No início do ano escrevi para ela sobre a possibilidade de participar da competição e, para a minha grata surpresa, ela respondeu em português! Chegou a morar em Goiânia, entre 1978 e 1979, como parte de um programa de intercâmbio. Muito gente boa. Aqui estamos nós em sua loja de dar água na boca:
Eu e Anita
O outro jurado, Paul, do FBI, também muito gente fina:Paul

Levei um total de 12 garrafinhas. Seis para o concurso e as outras pra servir pro pessoal. Foram muito bem recebidas, especialmente a Dubbel e a Barley Wine! Note que eles pedem apenas duas garrafinhas de cada cerveja. A Anita me explicou que eles separam três jurados para cada conjunto de aproximadamente doze cervejas, e abrem uma garrafa para pontuar e decidir o vencedor de cada estilo. A outra garrafa é aberta apenas para escolher o Best in Show, a melhor dentre os vencedores de cada estilo, mas no sentido de ser a melhor de acordo com o estilo, ou seja, por exemplo, a La Trapaça é mais fiel ao estilo dubbel do que O Espresso da Meia-Noite é fiel ao estilo Sweet Stout, ou algo assim.

O encontro contou com a presença ilustre de John Blichmann, de equipamentos famosos como Beer Gun, Fermenator, Therminator, etc. Para o evento, ele trouxe dois Beer Guns para serem sorteados, além do seu novo Fermenator, de 42 galões (148L), se não me engano, mas este apenas para exibição:
Fermenator de 42 galões
E eu aproveitei para tirar foto ao lado dele, com um Therminator:
Eu e John Blichmann
Mas este infelizmente não era meu. Além dos Beer Guns, vários prêmios foram sorteados, anunciados pelo Ron Smith, do FBI:
Ron
Eu ganhei uma caixa com seis garrafinhas de Sheet Metal Blonde, uma Witbier da Barley Island Brewing Company, de Noblesville, aqui mesmo em Indiana. Legal!



Foi um encontro com ótimas cervejas e ótimas pessoas. Provei pela primeira vez um cidra caseira, de um rapaz do clube CACA, de Columbus. Muito boa. Também conheci uma outra pessoa que morou no Brasil, em Viçosa, o Greg Christmas, do FBI, casado com Mary Ann:
Eu e Greg e Mary Christmas
O Greg foi o vencedor nas categorias “Belgian Dubbels and Tripels” e “Belgian Golden and Dark Strong Ales”, e foi chamado rei das belgas, mas espero que esse ano ele perca pra mim, he, he, he. Sonho meu. Muito gente fina ele.



Brian e Starla, também do FBI, também foram muito simpáticos e estão agora fazendo planos para visitar o Brasil. Serão muito bem vindos.
Brian e Starla

Voltei de carona com o pessoal do Bloomington Hop Jockeys (Kris, Kevin e Katrhyn), o outro dos dois clubes de cervejeiros caseiros de Bloomington.
Kevin, Kathryn e Kris

O chato é que me atrasei e perdi o casamento de uma amiga romena, Cris, com o Daniel, mas na semana seguinte, consegui sair com eles e o Du para tomar umas Hoegaarden na pressão:
Cris, Daniel eu e Du

A viagem também me rendeu vários equipamentos e insumos novos. Foram quase 20Kg de malte (várias sacas de 5 pounds e outras de 1 pound), 15Kg de duas cold plates com circuito duplo para montar uma chopeira a gelo com quatro torneiras, 5Kg de um moinho Crankandstein 3D de três rolos, várias torneiras e outras coisas menores. Acabei estourando o limite de peso e tive que fazer milagres para voltar.



E como já falei de outras vezes, é preciso muita cerveja para fazer matemática. Então quase toda noite tentava experimentar alguma coisa nova. Aqui vão algumas que anotei:

  • Vanilla Porter, da Breckenridge Brewery, Colorado, EUA. Garrafa de 12 fl. oz. (355ml), 4,7% alc./vol., 16 IBU. Feita com “real vanilla beans”! Aroma e sabor bem presentes e agradáveis de baunilha. Bem interessante. É uma porter com um sabor relativamente discreto de tostado, chocolate e café. Contra a luz, é meio avermelhada. Mas talvez a baunilha esteja um pouco demais e um pouco enjoativa. O lúpulo não é tão agradável. E, de fato, tomando o segundo copo, tá difícil de continuar. Enjoada mesmo. A Glück Hairy Porter do pessoal da Glück Bier, de BH, Daniel Chaves, Diego Pinheiro e José Augusto Silveira, é muito mais equilibrada e melhor!
  • Hoegaarden na pressão (em um novo bar, Flatbread, que abriu em Bloomington), com sabor discreto de laranja e bem discreto de coentro, carbonatação alta, acidez pronunciada, bastante refrescante. Muito melhor do que na garrafa. Uma delícia.
  • Midas Touch, da Dogfish Head Craft Brewery, Delaware, EUA. Garrafa 12 fl. oz. (355ml), 9% alc./vol., 20 IBU, “with barley, honey, white muscat grapes & saffron”! De fato, aromas de mel e uva perceptíveis e açafrão bem discreto. Muito interessante. Boa; ligeiramente doce, mas não a ponto de enjoar; pouco encorpada, e sem muito calor do álcool, até enganando de início, parecendo não ter um teor alcoólico tão alto. Lembra um Sauternes (eu disse “lembra”, bem de longe, com todo o respeito).
  • He’Brew Bittersweet Lenny’s R.I.P.A, da Shmaltz Brewing Company, da California, EUA. Garrafa 1 pint/16 fl.oz. (473ml), 10% alc./vol.. Uma IPA “dupla” com centeio. Maravilhosa. Cor cobre escuro, aroma acentuado de lúpulo, sabor de malte caramelo e centeio, lúpulo cítrico, bastante cremosa, doce e amarga ao mesmo tempo, retrogosto bem amargo, complexa. Uma delícia. Mais uma IPA de centeio que eu adoro. Da página deles, algumas informações sobre a receita: maltes “2-row, Rye Ale Malt, Torrified Rye, Crystal Rye 75, Crystal Malt 65, Wheat, Kiln Amber, Caramel 70”; lúpulos “Warrior, Cascade, Simcoe, Crystal, Chinook, Amarillo, Centennial e Dry Hopped with Amarillo and Crystal”. Na página deles http://www.shmaltz.com/lennys.html dá até para pegar os detalhes da receita. Mas apesar da gravidade alta e da variedade de maltes, ela não tem o corpo e a complexidade de uma Barley Wine. É, de fato, uma IPA.
  • Arrogant Bastard Ale, da Stone Brewing Company, California, EUA. Garrafa 1 pint/16 fl. oz. (473ml), 7,2% alc./vol.. Bem lupulada, amarga, lúpulo mais para herbáceo do que cítrico, digamos assim. Malte caramelo. Espuma espessa, boa carbonatação, enchendo a boca. Muito gostosa.
  • Hacker-Pschorr (Hefe) Weisse, na pressão, no bar Irish Lion, em Bloomington. Graças a essa cerveja que eu adorava weiss. Depois, no Brasil, restrito a Paulaners, Franziskaners e Erdingers da vida, esqueci dela e comecei a achar weiss sem graça. Mas hoje, depois de provar de novo essa cerveja, eu vi como uma weiss pode ser maravilhosa. Maiores informações para quem souber alemão na página da Hacker-Pschorr Hefe Weiss, o que não é o meu caso.
  • Sheet Metal Blonde, da Barley Island Brewing Company, de Noblesville, Indiana, EUA. Garrafa de 12 fl. oz. (355ml). Essa é da caixa de 6 cervejas que ganhei no sorteio no Brew-B-Q 2007. Não é uma Witbier excelente, mas também não é ruim como aquela Blue Moon da Coors. Tem um coentro perceptível e é meio rala, com alguns sabores meio estranhos , mas nada muito crítico. Valeu a experiência, para apagar a péssima imagem de belgian wit americana que tinha com a Blue Moon.
  • Cane & Ebel, da Two Brothers Brewing Company, de Illinois, EUA. Garrafa 1 pint/16 fl. oz. (473ml), 7,0% alc./vol.. Uma cerveja de centeio bem lupulada. Malte caramelo, “spicy” do centeio, e mais para amarga. Lúpulo mais herbáceo, mas também um pouco cítrico. Essa eu já conhecia e já tinha comentado antes. Uma delícia.